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A Arte de Escutar

Stresa, Itália - 2ª palestra 8 de julho, 1933.

Pergunta: Diz-se que na realidade o senhor está a acorrentar o indivíduo, não a libertá-lo. Isto é verdade?

Krishnamurti: Depois de ter respondido a esta questão, você próprio poderá descobrir se estou a libertar o indivíduo ou a acorrentá-lo.

Tomemos o indivíduo tal como ele é. O que queremos dizer com indivíduo? Uma pessoa que é controlada e dominada pelos seus medos, os seus desapontamentos, as suas ânsias, uma pessoa que cria um determinado conjunto de circunstâncias que o escravizam e o forçam a ajustar-se numa estrutura social. É isto o que queremos dizer com indivíduo. Através dos nossos medos, das nossas superstições, das nossas vaidades e das nossas ânsias, criamos um determinado conjunto de circunstâncias ao qual nos escravizamos. Quase perdemos a nossa individualidade, a nossa singularidade. Quando você examina a sua acção na vida quotidiana, verá que ela é apenas uma reacção a um conjunto de normas, a uma série de ideias.

Por favor acompanhem o que eu digo, e não digam que eu forço o homem a libertar-se para que possa fazer o que gosta – para que possa provocar destruição e catástrofe.

Antes de mais nada quero esclarecer que somos apenas reacções a um conjunto de normas e ideias que criamos através do nosso sofrimento e medo, através da nossa ignorância, do nosso desejo de posse. A esta reacção chamamos acção individual, mas para mim, não é de forma alguma acção. É uma reacção constante na qual não há acção positiva.

Colocarei a questão de outra forma. Presentemente, o homem é apenas o vazio da reacção, nada mais. Ele não age a partir da totalidade da sua natureza, da sua plenitude, da sua sabedoria; ele age meramente a partir de uma reacção. Eu afirmo que o caos, a destruição total está a acontecer no mundo porque não agimos a partir da nossa plenitude, mas a partir do nosso medo, a partir da falta de compreensão. Uma vez nos tornemos conscientes do facto de que o que chamamos individualidade é apenas uma série de reacções nas quais não há totalidade de acção; uma vez compreendamos isso, que a individualidade é apenas uma série de reacções nas quais há vazio constante, um vácuo, então agiremos harmoniosamente. Como vamos descobrir o valor de uma determinada norma a que nos agarramos? Não descobrirão agindo em oposição a essa norma, mas pesando e equilibrando o que vocês realmente pensam e sentem contra o que a norma exige. Descobrirãp que a norma exige determinadas acções, ao passo que a vossa própria acção instintiva tende para outra direcção. Então o que farão? Se fizerem o que o vosso instinto requer, a vossa acção levará ao caos, porque os nossos instintos foram pervertidos através de séculos do que chamamos educação – educação essa que é inteiramente falsa. O vosso próprio instinto exige um tipo de acção, mas a sociedade, que nós, individualmente, criamos através dos séculos, sociedade essa da qual nos tornamos escravos, exige outra espécie de acção. E quando vocês agem de acordo com o conjunto de normas exigidas pela sociedade não estão a agir através da totalidade da compreensão.

Na realidade, meditando sobre as exigências dos vossos instintos e sobre as exigências da sociedade, vocês descobrirão como poderão agir em sabedoria. Essa acção liberta o indivíduo; não o acorrenta. Mas a libertação do indivíduo requer grande seriedade, grande procura na profundidade da acção; não é o resultado da acção nascida de um impulso momentâneo.

Portanto devem reconhecer o que são agora. Apesar do bem instruídos que possam ser, vocês são apenas parcialmente um verdadeiro indivíduo; a maior parte de vocês está determinada pela reacção à sociedade, que vocês criaram. Vocês são apenas uma engrenagem na tremenda máquina a que chamam sociedade, religião, política, e enquanto forem essa engrenagem, a vossa acção nasce da limitação; apenas os levará à desarmonia e ao conflito. Foi a vossa acção que resultou no nosso presente caos. Mas se tivessem agido a partir da vossa própria plenitude teriam descoberto o verdadeiro valor da sociedade e o instinto causador da acção; então a vossa acção seria harmoniosa, não um compromisso.

Primeiramente, então, devem tornar-se conscientes dos falsos valores que foram estabelecidos através dos séculos e dos quais se tornaram escravos; devem tornar-se conscientes dos valores, para descobrir se são falsos ou verdadeiros, e isto devem fazê-lo por si próprios. Ninguém o pode fazer por vocês – e aqui reside a grandeza e a glória do homem. Assim, descobrindo o correcto valor dos padrões, libertam a mente dos falsos padrões transmitidos através dos tempos. Mas tal libertação não significa a acção impetuosa e instintiva que leva aos caos; significa a acção nascida da total harmonia de mente e coração.

Pergunta: O senhor nunca viveu a vida de um homem pobre; sempre teve a segurança invisível dos seus amigos ricos. Fala da absoluta abdicação de qualquer tipo de segurança na vida, mas milhões de pessoas vivem sem essa segurança. O senhor diz que uma pessoa não se pode aperceber do que não experimentou; consequentemente, o senhor não pode saber o que a pobreza e a insegurança física realmente são.

Krishnamurti: Esta é uma pergunta que frequentemente me fazem; já a respondi muitas vezes antes, mas fá-lo-ei de novo.

Primeiramente, quando falo de segurança, quero dizer a segurança que a mente estabelece para seu próprio conforto. O homem deve ter segurança física, algum conforto físico, para existir. Portanto, não confundam as duas. Cada um de vocês procura não só uma segurança física mas também uma segurança mental, e nessa procura stão a estabelecer autoridades. Quando percebem a falsidade da segurança que procuram, então essa segurança deixa de ter qualquer valor; então apercebem-se que apesar de ter que haver um mínimo de segurança física, mesmo essa segurança não pode ter senão pouco valor. Então já não concentram mais toda a vossa mente e o coração na aquisição constante de segurança física.

Colocarei a questão de forma diferente, e espero que fique clara; mas qualquer coisa que se diga pode facilmente ser mal interpretada. Tem que se passar através da ilusão das palavras para descobrir o pensamento que o outro deseja transmitir. Espero que tentem fazer isso durante esta conversa.

Eu digo que a vossa persecução da virtude, que é apenas o oposto daquilo a que chamam vício, é simplesmente uma busca de segurança. Porque têm um conjunto de padrões na vossa mente, procuram a virtude pela satisfação que dela conseguem; porque para vocês virtude é apenas um meio de adquirir segurança. Não tentam adquirir virtude pelo seu valor intrínseco, mas pelo que lhes dá em troca. As vossas acções, no entanto, estão apenas relacionadas com a persecução da verdade; em si próprias isentas de valor. A vossa mente está constantemente à procura da virtude para obter, através dela, outra coisa, e assim a vossa acção é sempre um objectivo intermédio para uma ulterior aquisição.

Talvez a maior parte dos que aqui estão estejam à procura de uma segurança espiritual mais do que de uma segurança física. Procuram segurança espiritual ou porque já possuem segurança física – uma abastada conta bancária, uma posição segura, uma alta posição na sociedade – ou porque não podem alcançar segurança física e por isso voltam-se para a segurança espiritual como um substituto. Mas para mim não existe essa coisa de segurança, um abrigo em que a nossa mente e emoção possa sentir conforto. Quando se aperceberem disso, quando a vossa mente estiver livre da ideia de conforto, então não se apegarão à segurança como fazem agora.

Perguntam-me como posso entender a pobreza se não a experimentei. A resposta é simples. Uma vez que não procuro segurança nem física nem mental, não tem qualquer importância para mim se são os meus amigos que me dão comida, ou se trabalho para a ter. É de muito pouca importância para mim se viajo ou não viajo. Se me pedem, venho; se não me pedem, não faz qualquer diferença para mim. Porque eu sou rico em mim mesmo (e não digo isto com presunção), porque não procuro segurança, tenho poucas necessidades físicas. Mas se eu procurasse o conforto físico, eu daria ênfase às necessidades físicas, daria ênfase à pobreza.

Olhemos para isto de uma maneira diferente. A maioria das nossas desavenças no mundo dizem respeito à posse ou não posse; dizem respeito à aquisição disto e à protecção daquilo. Então porque colocamos tal ênfase na posse? Fazemo-lo porque a posse nos dá poder, prazer, satisfação; dá-nos uma certa garantia de individualidade e proporciona-nos margem de manobra para a nossa acção, para a nossa ambição. Colocamos ênfase na posse devido ao que dela obtemos.

Mas se nos tornarmos ricos em nós mesmos, então a vida fluirá através de nós harmoniosamente; então a posse ou a pobreza já não serão de grande importância para nós. Porque colocamos ênfase na posse, perdemos a riqueza da vida; ao passo que, se fossemos completos em nós mesmos, descobriríamos o valor intrínseco de todas as coisas e viveríamos em harmonia de mente e coração.

Pergunta: Foi dito que é a manifestação de Cristo nos nossos tempos. Que tem a dizer sobre isto? Se é verdade, porque não fala de amor e compaixão?

Krishnamurti: Meus amigos, porque fazem tal pergunta? Porque perguntam se sou a manifestação de Cristo? Perguntam porque querem que lhes assegure que sou ou não o Cristo, para que possam julgar o que digo de acordo com o padrão que têm. Há duas razões pelas quais fazem essa pergunta: pensam que sabem o que é o Cristo, e por isso dizem, “Agirei de acordo”; ou, se eu disser que sou o Cristo, então pensam que o que digo deve ser verdade. Não estou a fugir à questão, mas não lhes vou dizer quem sou. Isso é de muito pouca importância, e, além disso, como podem saber o que ou quem sou mesmo que eu lhes diga? Tal especulação carece de importância. Portanto não nos preocupemos sobre quem sou, mas olhemos para a razão da vossa pergunta.

Querem saber quem eu sou porque estão indecisos sobre vocês próprios. Não estou a dizer se sou ou não o Cristo. Não lhes estou a dar uma resposta categórica, porque para mim a pergunta não é importante. O que é importante é se o que eu estou a dizer é verdade, e isto não depende do que eu sou. É algo que só poderão descobrir ao libertarem-se de preconceitos e padrões. Não podem obter verdadeira liberdade de preconceitos olhando para uma autoridade, trabalhando para um fim, no entanto é isso que estão a fazer; sub-repticiamente, perseverantemente, estão a procurar uma autoridade, e nessa busca não estão senão a transformar-se em máquinas imitativas.

Perguntam porque não falo de amor, de compaixão. Fala a flor do seu perfume? Ela simplesmente é. Já falei do amor; mas para mim o importante não é discutir o que é o amor ou a compaixão, mas libertar a mente de todas as limitações a que chamamos egotismo, auto-consciência; então saberão sem perguntar, sem discussão. Questionam-me agora porque pensam que depois podem agir em conformidade com o que descobrem de mim, que terão uma autoridade para a vossa acção.

Portanto digo novamente, a verdadeira questão não é porque não falo sobre o amor e a compaixão, mas antes, o que impede a vida natural e harmoniosa do homem, a plenitude de acção que é amor. Falei sobre as muitas barreiras que impedem a nossa vida natural, e expliquei que tal vida não significa acção instintiva e caótica, mas sim vida rica e plena. A vida rica e natural tem sido impedida através de séculos de conformidade, através de séculos do que chamamos educação, que não tem sido mais que um processo de produção de tantas máquinas humanas. Mas quando compreendem a causa destes impedimentos e barreiras que criaram para vocês mesmos através do medo na vossa procura de segurança, então tornam-se livres deles; então há amor. Mas esta é uma compreensão que não pode ser discutida. Não discutimos sobre a luz do sol. Está aí; sentimos o seu calor e apercebemo-nos da sua beleza penetrante. Somente quando o sol se esconde é que discutimos sobre a sua luz. Da mesma forma acontece com o amor e a compaixão.

Pergunta: Nunca nos deu uma concepção clara do mistério da morte e da vida após a morte, contudo fala constantemente de imortalidade. Sem dúvida que acredita na vida após a morte?

Krishnamurti: Querem saber categoricamente se existe ou não aniquilação após a morte: essa á uma abordagem errada ao problema. Espero que acompanhem o que digo, visto que de outra maneira a minha resposta não será clara para vocês e pensarão que não respondi à pergunta. Por favor interrompam-me se não compreenderem.

Que querem dizer quando falam da morte? A vossa dor pela morte de alguém, e o medo da vossa própria morte. A dor é despertada pela morte de alguém. Quando o vosso amigo morre, vocês tornam-se conscientes da solidão porque confiavam nele, porque vocês e ele se complementaram, porque se compreenderam, apoiaram e encorajaram. Portanto quando o vosso amigo morre, vocês têm consciência do vazio; querem aquela pessoa de volta para preencher a parte da vossa vida que antes preenchia.

Querem o vosso amigo novamente, mas uma vez que não o podem ter, voltam-se para várias ideias intelectuais, para vários conceitos emocionais, que pensam lhes darão satisfação. Vocês contam com essas ideias para consolo, para conforto, em vez de descobrir a causa do vosso sofrimento e de se libertarem eternamente da ideia da morte. Voltam-se para uma série de consolações e satisfações que gradualmente diminuem o vosso intenso sofrimento; contudo, quando a morte volta, voltam a experimentar o mesmo sofrimento outra vez.

A morte vem e causa-lhes dor intensa. Aquele que muito amaram morreu, e a sua ausência acentua a vossa solidão. Mas em vez de procurarem a causa dessa solidão, tentam escapar-lhe através de satisfações mentais e emocionais. Qual é a causa dessa solidão? Confiança em outro, a incompletude da vossa própria vida, a tentativa contínua de evitar a vida. Vocês não querem descobrir o valor real dos factos; em vez disso, atribuem um valor àquilo que não é senão um conceito intelectual. Assim, a perda de um amigo causa-lhes sofrimento porque essa perda os torna totalmente conscientes da vossa solidão. Depois há o medo da vossa própria morte. Quero saber se viverei depois da minha morte, se irei reencarnar, se existe uma continuação para mim de alguma forma. Preocupam-me estas esperanças e estes medos porque não conheci nenhum momento de riqueza durante a minha vida; não conheci um único dia sem conflito, um único dia em que me sentisse completo, como uma flor. Por isso tenho este desejo intenso de realização, um desejo que envolve a ideia de tempo.

Que querem dizer quando falamos sobre o “eu”? Vocês só tomam consciência do”eu” quando são apanhados no conflito da escolha, no conflito da dualidade. Neste conflito tomam consciência de si próprios e identificam-se com um ou com outro, e desta contínua identificação resulta a ideia do “eu”. Por favor considerem isto com o vosso coração e a vossa mente, visto que não é uma ideia filosófica que possa ser simplesmente aceite ou rejeitada.

Eu digo que através do conflito da escolha, a mente estabeleceu uma memória, muitas camadas de memória; identificou-se com estas camadas, e chama-se a si própria o “eu”, o ego. E daí surge a questão, “Que acontecerá comigo quando eu morrer? Terei uma oportunidade de viver outra vez? Existirá uma plenitude futura?” Para mim, estas questões nascem da ânsia e da confusão. O que é importante é libertar a mente deste conflito da escolha, já que somente quando assim se tiverem libertado poderá existir imortalidade.

Para a maioria das pessoas a ideia da imortalidade é a continuação do “eu”, sem fim, através do tempo. Mas eu digo que tal conceito é falso. “Então,” respondem vocês, “deve haver aniquilação total.” Eu digo que isto também não é verdade. A vossa crença de que a aniquilação total deve seguir-se à cessação da consciência limitada a que chamamos “eu”, é falsa. Vocês não podem entender a imortalidade dessa forma, visto que a vossa mente está aprisionada em opostos. A imortalidade está liberta de todos os opostos; é acção harmoniosa na qual a mente está absolutamente liberta do conflito do “eu”.

Eu digo que há imortalidade, imortalidade essa que transcende todas as nossas concepções, teorias e crenças. Somente quando têm a compreensão total dos opostos, ficarão livres deles. Enquanto a mente criar conflito através da escolha, deve existir consciência como memória que é o “eu”, e é o “eu” que teme a morte e anseia pela sua continuação. Por isso não existe a capacidade para compreender a plenitude de acção no presente, que é a imortalidade.

Um certo brâmane, de acordo com uma antiga lenda Indiana, decidiu distribuir algumas das suas posses no desempenho de um sacrifício religioso. Ora este brâmane tinha um filho pequeno que observava o seu pai e o assediava com imensas perguntas até que o pai ficou aborrecido. Finalmente o filho perguntou, “A quem me vais dar?” E o pai respondeu-lhe com irritação, “Dar-te-ei à Morte.” Ora considerava-se antigamente que aquilo que fosse dito teria que ser feito; portanto o brâmane teve que enviar o seu filho à Morte, de acordo com as palavras que irreflectidamente tinha proferido. À medida que o rapaz se dirigia para a casa da Morte, ouvia o que muitos professores tinham a dizer sobre a morte e sobre a vida após a morte. Quando chegou à casa da Morte, notou que a Morte estava ausente; portanto esperou três dias sem comer, de acordo com um antigo costume que proibia comer na ausência do anfitrião. Quando finalmente a Morte chegou, pediu humildemente desculpa por ter feito o brâmane esperar, e em sinal de pesar concedeu ao rapaz três desejos que ele pudesse querer.

No seu primeiro desejo o rapaz pediu que fosse devolvido ao pai; no Segundo, pediu que fosse instruído em certos ritos cerimoniais. Mas o terceiro desejo do rapaz não foi um pedido mas uma questão: “Diz-me, Morte”, perguntou ele, “a verdade sobre a aniquilação. Dos professores que ouvi no meu caminho para cá, alguns dizem que há aniquilação; outros dizem que existe continuidade. Diz-me, ó Morte, qual é a verdade.” “Não me faças essa pergunta”, replicou a Morte. Mas o rapaz insistiu. Assim, em resposta àquela pergunta a Morte ensinou ao rapaz o significado da imortalidade. A morte não lhe disse se há ou não continuidade, se há vida depois da morte, ou se há aniquilação; a Morte ensinou-lhe sim o significado da imortalidade.

Vocês querem saber se existe ou não continuidade. Alguns cientistas estão agora a provar que existe. As religiões afirmam-no, muitas pessoas acreditam-no, e vocês podem acreditar se assim o escolherem. Mas para mim, isso é de pouca importância. Sempre existirá conflito entre a vida e a morte. Somente quando conhecerem a imortalidade é que não haverá nem princípio nem fim; somente então é que a acção implica plenitude, e somente então há infinito. Por isso digo novamente, a ideia da reencarnação é de pouca importância. No “eu” nada há que dure; o “eu” é composto de uma série de memórias que envolvem conflito. Não podem tornar o “eu” imortal. Toda a vossa base de pensamento é uma série de realizações e por isso um contínuo esforço, uma contínua limitação da consciência. Contudo esperam dessa forma compreender a imortalidade, sentir o êxtase do infinito. Eu afirmo que a imortalidade é realidade. Vocês não podem discuti-lo; poderão sabê-lo na vossa acção, acção nascida da plenitude, da riqueza da sabedoria; mas essa plenitude, essa riqueza, não a podem alcançar ouvindo um guia espiritual ou lendo um livro de instrução. A sabedoria vem somente quando há plenitude de acção, quando há consciência completa do vosso todo em acção; então verão que todos os professores e todos os livros que pretendem guiá-los para a sabedoria nada lhes podem ensinar. Poderão conhecer o que é imortal, eterno, somente quando a vossa mente estiver livre de qualquer sentido de individualidade que é criado pela consciência limitada, que é o “eu”.

Pergunta: Quais são as causas dos desentendimentos que nos levam a colocar-lhe questões em vez de agir e viver?

Krishnamurti: É bom questionar, mas como recebem as respostas? Fazem uma pergunta e recebem uma resposta. Mas o que fazem com essa resposta? Perguntaram-me o que havia após a morte, e eu dei-lhes a minha resposta. Ora o que vão fazer com essa resposta? Vão armazená-la em qualquer canto do vosso cérebro e deixá-la aí permanecer? Vocês têm celeiros intelectuais nos quais reúnem ideias que não compreendem, mas que esperam lhes venham a servir em situações de dificuldade ou dor. Mas se compreenderem, se se entregarem de alma e coração ao que digo, então agirão; nessa altura a acção nascerá da vossa própria plenitude.

Há duas maneiras de colocar uma questão: podem colocar uma questão quando estão na intensidade do sofrimento, ou podem colocar uma questão intelectualmente, quando estão entediados e à vossa vontade. Num dia querem saber intelectualmente; noutro dia perguntam porque sofrem e querem saber a razão do sofrimento. Só podem realmente saber quando questionaremm na intensidade do sofrimento, quando não desejarem escapar do sofrimento, quando se encontrarem com ele cara a cara; somente então saberão o valor da minha resposta, o seu valor humano para o homem.

Pergunta: O que é que quer dizer exactamente por acção sem objectivo? Se é a resposta imediata de todo o nosso ser em que objectivo e acção são um só, como pode a acção do nosso quotidiano ser sem objectivo?

Krishnamurti: Você mesmo deu a resposta à pergunta, mas deu-a sem perceber. O que fará na sua vida quotidiana sem um objectivo? Na sua vida diária você pode ter um plano. Mas quando experimenta sofrimento intenso, quando é apanhado numa grande crise que requer acção imediata, então age sem objectivo; então não há motivo na sua acção, porque você está a tentar descobrir a causa do sofrimento com todo o seu ser. Mas a maioria de vocês não está predisposta a agir integralmente. Estão constantemente a tentar fugir do sofrimento, tentam evitar o sofrimento; não querem confrontá-lo.

Explicarei o que quero dizer de outra forma. Se você for um cristão, olha para a vida de um ponto de vista particular; se for Hindu, olha para ela de um ângulo diferente. Por outras palavras, o cenário da vossa mente dá o colorido à vossa visão da vida, e tudo o que vocês percebem é visto somente através daquela visão colorida. Assim nunca vêm a vida como ela realmente é; olham para ela através de um ecrã de preconceito, e por isso a vossa acção tem de ser sempre incompleta, tem sempre que ter um motivo. Mas se a vossa mente estiver liberta de todos os preconceitos, então encontram a vida como ela é; então encontram a vida integralmente, sem a busca de recompensa ou a tentativa de fugir ao castigo.

Pergunta: Qual é a relação entre técnica e vida, e porque é que a maior parte de nós confunde uma com a outra?

Krishnamurti: A vida, a verdade, é para ser vivida; mas a expressão requer uma técnica. Para pintar, vocês precisam de aprender uma técnica; mas um grande artista, se sentiu a chama do impulso criativo, não seria escravo da técnica. Se vocês forem ricos interiormente, a vossa vida é simples. Mas vocês querem chegar a essa completa riqueza através de meios externos tais como a simplicidade no vestir, a simplicidade na habitação, através do ascetismo e da auto-disciplina. Por outras palavras, vocês querem obter a simplicidade que resulta da riqueza interior através de técnicas. Não existe técnica que os guie à simplicidade; não existe caminho que os conduza à terra da verdade. Quando compreenderem isso com todo o vosso ser, então a técnica tomará o seu devido lugar na vossa vida.

A Arte de Escutar

Stresa, Itália - 2ª palestra 8 de julho, 1933.

Jiddu Krishnamurti. A Arte de Escutar. Filosofia. Textos de J.Krishnamurti em Português.

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