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A Arte de Escutar

Oslo, Noruega - palestra no auditório da universidade
5 de setembro, 1933.

Amigos, deram-me algumas questões a que responderei após a minha palestra.

Onde quer que vão através do mundo encontram sofrimento. Parece não haver limite para o sofrimento, não haver fim para os inumeráveis problemas que preocupam o homem, parece não haver saída deste contínuo conflito entre ele e os seus semelhantes. O sofrimento parece ser sempre o destino comum do homem, e ele tenta vencer esse sofrimento através da procura de conforto. O sofrimento parece ser o destino comum do homem, e ele tenta vencer esse sofrimento através da procura de conforto; ele pensa que procurando consolo, procurando conforto, se libertará desta batalha contínua, dos seus problemas de conflito e sofrimento. E parte à descoberta do que lhe dará maior satisfação, do que lhe dará o maior consolo na sua contínua batalha de sofrimento, e vai de um consolo a outro, de uma sensação a outra, de uma satisfação a outra. Assim, através do processo do tempo, gradualmente estabelece inúmeras seguranças, inúmeros refúgios, para os quais acorre quando experimenta sofrimento intenso.

Ora há muitas espécies de segurança, muitas espécies de refúgio. Há aquelas que proporcionam satisfação emocional temporária, tais como as drogas e a bebida; há divertimentos, e tudo isso pertence ao prazer transitório. Há inúmeras crenças nas quais o homem procura abrigo do seu sofrimento; liga-se a crenças ou ideais na esperança de que lhe moldem a vida e que pela conformidade ele gradualmente vença o sofrimento. Ou refugia-se em sistemas de pensamento a que chama filosofias, mas que são meras teorias transmitidas através do séculos, ou teorias que podem ter sido verdadeiras para aqueles que as apresentaram, mas que não são necessariamente verdadeiras para outros. Ou, de novo, o homem se volta para a religião, isto é, para um sistema de pensamento que o tenta configurar, moldar a um padrão particular, conduzir em direcção a um fim; porquanto a religião, em vez de dar compreensão ao homem, apenas lhe dá consolo. Não existe tal coisa como conforto e segurança na vida. Mas na sua procura de conforto, o homem construiu através dos séculos as seguranças da religião, dos ideais, das crenças, e a ideia de Deus.

Para mim existe Deus, uma realidade viva, eterna. Mas esta realidade não pode ser descrita; cada um deve compreendê-la por si mesmo. Qualquer um que tente imaginar o que é deus, o que é a verdade, está apenas à procura de uma fuga, de um refúgio da rotina diária do conflito.

Quando o homem estabelece uma segurança – a segurança da opinião pública ou da felicidade que ele obtém das posses ou da prática da virtude, que é uma fuga – ele enfrenta cada incidente da vida, cada uma das inumeráveis experiências da vida, com o pano de fundo dessa segurança: isto é, ele nunca enfrenta a vida como ela realmente é. Chega a ela com um preconceito, com um pano de fundo já desenvolvido pelo medo; aborda a vida com a mente totalmente revestida, sobrecarregada, de ideias.

Colocando as coisas de maneira diferente, o homem geralmente só vê a vida através da tradição do tempo que ele tem presente no espírito e no coração; ao passo que para mim a vida é nova, renova-se, move-se, nunca é estática. A mente e o coração do homem estão sobrecarregados pelo desejo incontestado de conforto, que necessariamente provoca autoridade. Ele enfrenta a vida através da autoridade, e por isso é incapaz de compreender o significado pleno da experiência, que é o único que o pode libertar do seu sofrimento. Ele consola-se a si mesmo com os falsos valores da vida e torna-se meramente uma máquina, uma peça de engrenagem na estrutura social ou no sistema religioso.

Não se pode descobrir o que é o valor verdadeiro enquanto a mente estiver à procura de consolo; e uma vez que a maioria das mentes anda à procura de consolo, conforto, segurança, não podem descobrir o que é a verdade. Assim, a maioria das pessoas não é um indivíduo; são simplesmente peças de engrenagem num sistema. Para mim, um indivíduo é uma pessoa que, através do questionamento, descobre os valores correctos; e apenas se pode questionar verdadeiramente quando se está a sofrer. Sabem, quando sofrem, a vossa mente torna-se perspicaz, viva; então não são teóricos; e somente nesse estado de espírito é que podem questionar-se sobre qual é o verdadeiro valor dos padrões que a sociedade, a religião, e os políticos instauraram em nosso redor. Somente nesse estado podemos interrogar-nos, e quando nos interrogamos, quando descobrimos valores verdadeiros, então somos verdadeiros indivíduos. Mas não até lá. Isto é, não somos indivíduos enquanto estivermos inconscientes dos valores aos quais nos acostumamos através de seguranças, através de religiões, através da busca de crenças e ideais. Somos simplesmente máquinas, escravos da opinião pública, escravos dos inúmeros ideais que as religiões colocaram em nosso redor, escravos dos sistemas económicos e políticos que aceitamos. E uma vez que toda a gente é uma peça de engrenagem nesta máquina, nunca podemos descobrir os valores verdadeiros, os valores duradouros, os únicos em que há felicidade eterna, compreensão eterna da verdade.

A primeira coisa a compreender, então, é que temos estas barreiras, estes valores que nos foram dados. Para descobrir o seu significado exacto devemos questionar, e só podemos questionar quando as mentes e os nossos corações ardem com sofrimento intenso. E toda a gente sofre; o sofrimento não é a dádiva de uma minoria. Mas quando sofremos procuramos consolo, conforto imediato, e por isso já não há questionamento; já não há dúvida, mas mera aceitação. Por isso, onde há carência, não pode haver compreensão dos valores correctos que por si sós libertam o homem, que por si sós lhe conferem a capacidade de existir como um ser humano completo. E conforme eu estava a dizer, quando enfrentamos a vida parcialmente, com todo o pano de fundo tradicional de valores incontestados e mortos, naturalmente existe conflito com a vida, e este conflito cria em cada um de nós a ideia da consciência do ego. Isto é, quando as nossas mentes têm ideias preconcebidas ou crenças preconcebidas ou valores incontestados preconcebidos, há limitação, e essa limitação cria a auto-consciência que por sua vez causa sofrimento.

Pondo as coisas de outra maneira, enquanto a mente e o coração estiverem aprisionados pelos falsos valores que as religiões e as filosofias estabeleceram em nosso redor, enquanto a mente não descobrir por si os verdadeiros e vivos valores, há limitação de consciências, limitação de compreensão, que cria a ideia do “eu”. E desta ideia do “eu”, do facto de que a consciência conhece a limitação do tempo como um princípio e um fim, brota o sofrimento. Uma tal consciência, uma tal mente e coração são aprisionados no medo da morte e por isso a interrogação sobre a outra vida.

Quando compreenderem que a verdade, a vida, só pode ser percebida quando descobrirem por si próprios, sem qualquer autoridade ou imitação, o verdadeiro significado do sofrimento, o valor vivo de cada acção, então a vossa mente liberta-se da consciência do ego.

Uma vez que a maioria de nós procura inconscientemente um refúgio, um local de segurança no qual não sejamos magoados, uma vez que a maioria de nós procura nos falsos valores uma fuga do conflito contínuo, por isso eu digo, tornem-se conscientes de que todo o processo do pensamento, no presente, é uma busca contínua de refúgio, de autoridade, de padrões para a eles se submeterem, de sistemas a seguir, de métodos a imitar. Quando se aperceberem de que não existe tal coisa como o conforto, como a segurança, quer na posse de coisas quer na posse de ideias, então enfrentam a vida como ela é, não com o contexto da ânsia intensa de conforto. Então tornam-se conscientes, mas sem a luta constante para se tornarem conscientes – uma luta que perdura enquanto a vossa mente e o vosso coração procurarem uma fuga contínua da vida através de ideais, através da conformidade, através da imitação, através da autoridade. Quando compreenderem isso, desistem de procurar uma fuga; são então capazes de enfrentar a vida completamente, nuamente, totalmente, e nisso há compreensão que por si só lhes dá o êxtase da vida.

Pondo as coisas de uma outra maneira, uma vez que as nossas mentes e corações têm sido através dos séculos estropiados por falsos valores, somos incapazes de enfrentar integralmente a experiência. Se forem Cristãos enfrentam-na de uma maneira, conforme ditam todos os vossos preconceitos da Cristandade e o vosso treino religioso. Se forem Conservadores ou Comunistas, enfrentam-na de outra maneira. Se se atêm a uma crença particular, enfrentam a vida dessa maneira particular, e esperam compreender o seu pleno significado através de uma mente com ideias preconcebidas. Somente quando compreendem que a vida, esse movimento livre e eterno, não pode ser enfrentada parcialmente e com preconceitos, só então estarão livres, sem esforço. Então não estarão entravados por todas as coisas que possuem – por tradição herdada ou por conhecimento adquirido. Digo conhecimento, e não sabedoria, porque a sabedoria não entra aqui. A sabedoria é natural, espontânea; só chega quando se enfrenta a vida abertamente e sem qualquer barreira. Para enfrentar a vida abertamente o homem tem de se libertar de todo o conhecimento; não deve procurar uma explicação do sofrimento, porque quando procura tal explicação está a ser capturado pelo medo.

Portanto repito, há uma maneira de viver sem esforço, sem a tensão constante da consecução e da luta pelo sucesso, sem o medo constante de perda ou ganho; afirmo que há uma maneira harmoniosa de viver a vida que surge quando enfrentam completamente cada experiência, cada acção, quando a vossa mente não está dividida contra si própria, quando o vosso coração não está em conflito com a vossa mente, quando fazem todas as coisas integralmente, com completa unidade de mente e coração. Então nessa riqueza, nessa plenitude, há o êxtase da vida, e isso para mim é duradouro, isso para mim é eterno.

Pergunta: O senhor diz que os seus ensinamentos são para todos, não para uma qualquer minoria selecta. Se assim é, porque é que achamos difícil compreendê-lo?

Krishnamurti: Não se trata de me compreenderem. Porque haveriam de me compreender? A verdade não é minha, isso sim deveriam compreender. Acham as minhas palavras difíceis de compreender porque as vossas mentes estão sufocadas com ideias. O que eu digo é muito simples. Não é para a minoria selecta; é para todos os que estiverem dispostos a tentar. Eu afirmo que se se libertassem das ideias, das crenças, de todas as seguranças que as pessoas edificaram através dos séculos, então compreenderiam a vida. Podem libertar-se apenas pelo questionamento, e só podem questionar-se quando estão revoltados – não quando estão estagnados com ideias satisfatórias. Quando as vossas mentes estão sufocadas com crenças, quando estão pesadas com o conhecimento adquirido dos livros, então é impossível compreender a vida. Portanto não é uma questão de me compreenderem.

Por favor – e não estou a dizer isto com qualquer preconceito – eu encontrei uma maneira; não um método que possam praticar, um sistema que se torna numa jaula, numa prisão. Eu compreendi a verdade, Deus, ou seja lá o nome que gostam de lhe dar. Eu afirmo que existe essa realidade de vida eterna, mas não pode ser compreendida enquanto a mente e o coração estiverem sobrecarregados, estropiados pela ideia do “eu”. Enquanto essa auto-consciência, essa limitação, existir, não pode haver qualquer compreensão do todo, da totalidade da vida. Esse “eu” existe enquanto houverem falsos valores – falsos valores que herdámos ou que perseverantemente criamos na nossa busca de segurança, ou que estabelecemos como a nossa autoridade na busca de conforto. Mas os valores correctos, os valores vivos – estes só os podem descobrir quando realmente sofrem, quando estão muito descontentes. Se estiverem dispostos a tornarem-se livres da perssecução de ganhos, então encontrá-los-ão. Mas a maioria de nós não quer ser livre; queremos conservar o que ganhamos, quer em virtude quer em conhecimento quer em posses; queremos conservá-los a todos. Assim sobrecarregados tentamos enfrentar a vida, e daí a absoluta impossibilidade de a compreender completamente.

Portanto a dificuldade reside não em compreender-me, mas em compreender a própria vida; e essa dificuldade existirá enquanto as vossas mentes estiverem sobrecarregadas com esta consciência a que chamamos “eu”. Não posso dar-lhes valores correctos, se eu vo-los dissesse, fariam disso um sistema e imitá-lo-iam, estabelecendo desse modo apenas uma outra série de falsos valores. Mas podem descobrir por si próprios os valores correctos, quando se tornarem verdadeiramente indivíduos, quando cessarem de ser uma máquina. E só se podem libertar desta máquina mortífera dos falsos valores quando estiverem muito revoltados.

Pergunta: Foi reivindicado por alguns que o senhor é o Cristo que voltou novamente. Gostaria de saber de uma maneira bastante precisa o que tem a dizer sobre isto. Aceita ou rejeita a reivindicação?

Krishnamurti: Nem aceito nem rejeito. Isso não me interessa. Que valor tem para vocês, meus amigos, perguntarem-me isto? Fazem-me esta pergunta aonde quer que eu vá. As pessoas querem saber se sou, ou se não sou. Se digo que sou, ou tomam as minhas palavras como autoridade ou riem-se delas; se digo que não sou, ficam encantados. Nem afirmo nem nego. Para mim a reivindicação é de muito pouca importância porque sinto que o que tenho a dizer é em si inerentemente correcto. Não depende de títulos ou graduações, revelação ou autoridade. O que é importante é a vossa compreensão disso, a vossa inteligência e o vosso próprio desejo desperto de descobrir, o vosso próprio amor à vida – não a afirmação de que sou ou não sou o Cristo.

Pergunta: A sua compreensão da verdade é permanente e está sempre presente, ou existem momentos obscuros em que volta a enfrentar a dependência do medo e do desespero?

Krishnamurti: A dependência do medo existe enquanto permanecer a limitação da consciência a que chamam “eu”. Quando se tornam ricos dentro de si próprios, então já não sentirão carência. É nesta batalha contínua da carência, nesta procura de vantagem nas circunstâncias, que o medo e a escuridão existem. Penso que estou liberto disso. Como podem sabê-lo? Não podem. Eu posso estar a enganá-los. Portanto não se preocupem com isso. Mas tenho isto para dizer: pode-se viver sem esforço, de uma maneira a que não se pode chegar através do esforço; pode-se viver sem a luta incessante para a realização espiritual; pode-se viver harmoniosamente, completamente, na acção – não na teoria, mas na vida diária, no contacto diário com os seres humanos. Afirmo que há uma maneira de libertar a mente de todo o sofrimento, uma maneira de viver completamente, integralmente, eternamente. Mas para o fazer, devemos estar completamente abertos à vida; não nos devemos permitir permanecer em qualquer refúgio ou reserva em que a mente possa residir, para os quais o coração se possa retirar em tempos de conflito.

Pergunta: O senhor diz que a verdade é simples. Para nós, o que diz parece-nos muito abstracto. Qual é a relação prática, segundo o senhor, entre a verdade e a vida real?

Krishnamurti: A que é que chamam vida real? Ganhar dinheiro, explorar os outros e sermos explorados, casamento, filhos, procurar amigos, experimentar ciúmes, desavenças, medo da morte, a interrogação sobre a outra vida, guardar dinheiro para a velhice – a tudo isto chamamos vida diária. Ora para mim, a verdade e o devir eterno da vida não podem ser encontrados à parte destas coisas. No transitório reside o eterno – não em separado do transitório. Por favor, porque exploramos, seja nas coisas físicas ou nas coisas espirituais? Porque somos explorados pelas religiões que instituímos? Porque somos explorados por sacerdotes a quem recorremos para obter conforto? Porque pensamos na vida como uma série de consecuções, não como uma acção completa. Quando olhamos para a vida como um meio de aquisição, seja de coisas ou de ideias, quando olhamos para a vida como uma escola para aprender, para crescer, então estamos dependentes dessa auto-consciência, dessa limitação: criamos o explorador, e tornamo-nos no explorado. Mas se nos tornarmos absolutamente individuais, completamente auto-suficientes, sós na nossa compreensão, então não distinguimos entre a vida real e a verdade, ou Deus. Sabem, porque achamos a vida difícil, porque não compreendemos todas as complicações da acção diária, porque queremos fugir dessa confusão, voltamo-nos para a ideia de um princípio objectivo; e portanto diferenciamos, distinguimos a verdade como sendo impraticável, como nada tendo a ver com a vida diária. Assim a verdade, ou deus, torna-se um escape para o qual nos voltamos em dias de conflito e aflição. Mas se, na nossa vida diária, descobríssemos porque agimos, se enfrentássemos integralmente os incidentes, as experiências, os sofrimentos da vida, então não distinguiríamos a vida prática da verdade impraticável. Porque não enfrentamos as experiências com todo o nosso ser, mentalmente e emocionalmente, porque não somos capazes de fazer isso, separamos a vida diária e a acção prática da ideia da verdade.

Pergunta: Não acha que o apoio das religiões e dos professores religiosos é uma grande ajuda para o homem no seu esforço por se libertar de tudo o que o ata?

Krishnamurti: Nenhum professor nos pode dar os valores correctos. Podem ler todos os livros do mundo, mas deles não podem recolher sabedoria. Podem seguir todos os sistemas religiosos do mundo e contudo permanecer escravos deles. Somente quando estão sozinhos é que podem encontrar sabedoria e ser absolutamente livres, soltos. Por solidão não quero dizer viver à parte da humanidade. Refiro-me àquela solidão que advém da compreensão, não do afastamento. Existe, por outras palavras, quando se é absolutamente individual, não individualista. Sabem, nós achamos que por praticar piano continuamente sob a orientação de um professor nos tornaremos grandes pianistas, músicos criativos; e similarmente contamos com os professores religiosos para orientação. Dizemos para nós próprios, “ Se eu praticar diariamente o que eles estabeleceram, possuirei a chama da compreensão criativa.” Eu afirmo, podem praticar para sempre, e continuarão sem ter essa chama criativa. Conheço muitas pessoas que praticam diariamente certos ideais, mas apenas se tornam cada vez mais atrofiadas na sua compreensão, porque estão meramente a imitar, estão simplesmente a conformar-se a um padrão. Libertaram-se de um professor e recorreram a um outro; simplesmente se transferiram de uma gaiola para outra. Mas se não procurarem conforto, se questionarem continuamente – e só podem questionar se estiverem revoltados – então instalarão a ausência de todos os professores e de todas as religiões; então serão supremamente humanos não pertencendo a um partido nem a uma religião nem a uma gaiola.

Pergunta: Quer dizer que não há qualquer ajuda para os homens quando a vida se torna difícil? Que eles ficam inteiramente entregues a si próprios para se ajudarem?

Krishnamurti: Penso, se não estou enganado – se estiver, por favor corrijam-me – penso que o interlocutor quer saber se não haverá uma fonte, uma pessoa ou uma ideia, para a qual nos possamos voltar em tempos de aflição, em tempos de pesar, em tempos de sofrimento.

Afirmo que não há qualquer fonte permanente que nos possa dar compreensão. Sabem, para mim a glória do homem é que ninguém o pode salvar excepto ele próprio. Por favor, quando olham para o homem em toda a parte do mundo, vêem que ele sempre se voltou para outro em busca de ajuda. Na Índia, contamos com teorias, com professores, para nos ajudarem. Aqui também fazem o mesmo. Em todo o mundo o homem se volta para alguém que o erga da sua própria ignorância. Eu afirmo que ninguém os pode erguer da vossa própria ignorância. Vocês criaram-na através do medo, através da imitação, através da procura de segurança, e por isso estabeleceram autoridades. Criaram para vocês próprios esta ignorância que domina cada um de vocês, e ninguém os pode libertar excepto vocês mesmos através da vossa própria compreensão. Os outros poderão libertá-los momentaneamente, mas enquanto existir a causa de raiz da ignorância, apenas criam um outro conjunto de ilusões.

Para mim, a causa de raiz da ignorância é a consciência do “eu”, da qual surge o conflito e o sofrimento. Enquanto essa consciência do “eu” existir, tem que haver sofrimento do qual ninguém os pode libertar. Na vossa devoção a uma pessoa ou a uma ideia podem momentaneamente separar-se dessa consciência, mas enquanto essa consciência permanecer é como uma ferida que está sempre a supurar. A mente só se pode libertar dessa ignorância quando enfrenta a vida integralmente, quando experimenta completamente, sem preconceito, sem ideias preconcebidas, quando já não está mutilada por uma crença ou por uma ideia. É uma das ilusões que prezamos, que alguém nos possa salvar, que não podemos erguer-nos deste charco de sofrimento. Durante séculos procuramos ajuda do exterior, e ainda estamos dominados por essa crença.

Pergunta: Qual é a causa real do presente caos no mundo, e como pode ser remediado este doloroso estado das coisas?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, creio, (que pode ser remediado), não contando com nenhum sistema como um remédio. Sabem, através dos séculos construímos um sistema, o sistema possessivo baseado na segurança. Fomos nós que o construímos; cada um de nós é responsável por este sistema em que a aquisição, o lucro, o poder, a autoridade e a imitação representam o papel mais importante. Fizemos leis para preservar esse sistema, leis baseadas no nosso egoísmo, e tornamo-nos escravos dessas leis. Agora queremos introduzir um novo conjunto de leis, do qual novamente nos tornaremos escravos, leis pelas quais a posse se torna um crime.

Mas se compreendêssemos a verdadeira função da individualidade, então deitaríamos mão à causa de raiz de todo este caos no mundo, este caos que existe porque não somos verdadeiramente indivíduos. Por favor compreendam o que quero dizer com indivíduo; não quero dizer individualista. Temos sido individualistas durante séculos; procurando segurança para nós próprios, conforto para nós próprios. Temos contado com as coisas físicas da vida para nos darem refúgio interior, felicidade, tranquilidade espiritual. Temos estado mortos e não o sabíamos. Porque imitámos e seguimos, cegamente exploramos as crenças. E estando espiritualmente mortos, naturalmente tentámos realizar os nossos poderes criativos no mundo da aquisição – daí o presente caos em que cada homem procura somente a sua própria vantagem. Mas se cada um, individualmente, começar a libertar-se de toda a imitação, e começar assim a compreender essa vida criativa, essa energia criativa que é livre, espiritual, então, creio, não procurará ou dará ênfase nem à posse nem à não-posse. Não acham?

Todas as nossas vidas são um processo de imitação. A opinião pública diz isto, portanto temos fazê-lo. Por favor, não estou a dizer que têm que ir contra todas as convenções, que devam impetuosamente fazer o que lhes apetece: isso seria igualmente estúpido. O que estou a dizer é isto: uma vez que somos meramente máquinas, uma vez que somos implacavelmente individualistas no mundo da aquisição, digo que se libertem de toda a imitação, que se tornem indivíduos; questionem cada padrão, tudo o que está à vossa volta, não apenas intelectualmente, não quando se sentem à vontade com a vida, mas no momento do sofrimento quando a vossa mente e o vosso coração estão perspicazes e despertos. Então, nessa compreensão que resulta da descoberta dos valores vivos, não dividirão a vida em secções – económica, doméstica, espiritual; enfrentá-la-ão como uma unidade completa; enfrentá-la-ão como um ser humano completo.

Para pôr um fim ao caos no mundo, à agressão e exploração implacáveis, não podem contar com nenhum sistema. Somente vocês próprios o podem fazer, quando se tornarem responsáveis, e só podem ser responsáveis quando estão realmente a criar, quando já não estão a imitar. Nessa liberdade haverá a verdadeira cooperação, não o individualismo que existe agora.

A Arte de Escutar

Oslo, Noruega - palestra no auditório da universidade
5 de setembro, 1933.

Jiddu Krishnamurti. A Arte de Escutar. Filosofia. Textos de J.Krishnamurti em Português.

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