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A Arte de Escutar

Frognerseteren, Noruega - 4ª palestra 12 de setembro, 1933.

Amigos, hoje vou fazer uma recapitulação do que tenho estado aqui a dizer.

Temos a ideia de que a sabedoria é um processo de aquisição através da constante multiplicação da experiência. Pensamos que multiplicando experiências aprenderemos, e que a aprendizagem nos dará sabedoria, e através dessa sabedoria na acção esperamos encontrar a riqueza, a auto-suficiência, a felicidade, a verdade. Isto é, para nós a experiência é apenas uma constante mudança de sensação, porque contamos com o tempo para nos dar sabedoria. Quando pensamos desta maneira, que através do tempo adquiriremos sabedoria, temos a ideia de chegar a qualquer lado. Isto é, dizemos que o tempo gradualmente revela a sabedoria. Mas o tempo não revela a sabedoria, porque usamos o tempo somente como um meio de chegar a qualquer lado. Quando temos a ideia de adquirir sabedoria através da mudança constante de experiência, estamos à procura de aquisição, e portanto não há percepção imediata que é sabedoria.

Tomemos um exemplo; talvez esclareça o que quero dizer. A esta mudança de desejo, esta mudança de sensação, esta multiplicação de experiências que essa mudança de sensação provoca, chamamos progresso. Suponham que vemos um chapéu numa loja, e desejamos possuí-lo; tendo obtido aquele chapéu, queremos alguma coisa mais – um carro, etc. Depois voltámo-nos para as necessidades emocionais, e, mudando assim o nosso desejo de um chapéu para uma sensação emocional, pensamos que amadurecemos. Da sensação emocional voltámo-nos para as sensações intelectuais, para as ideias, para Deus, para a verdade. Isto é, pensamos que progredimos através da mudança constante de experiências, do estado de desejar um chapéu para o estado de desejar e procurar Deus. Assim acreditamos que através das experiências, através da escolha, progredimos.

Ora para mim isso não é progresso; é apenas mudar de sensação, sensação cada vez mais subtil, mas ainda uma sensação, e por isso superficial. Apenas mudámos o objecto do nosso desejo; a princípio era um chapéu, agora tornou-se Deus, e aí pensamos que progredimos tremendamente. Isto é, pensamos que através deste processo gradual de refinamento da sensação descobriremos o que é a verdade, Deus, a eternidade. Eu afirmo que nunca encontrarão a verdade através da mudança gradual do objecto do desejo. Mas se compreenderem que somente através da percepção imediata, do discernimento imediato, reside a totalidade da sabedoria, então esta ideia da mudança gradual do desejo desaparecerá.

Ora o que é que fazemos? Pensamos: “Eu era diferente ontem, sou diferente hoje, e serei diferente amanhã; assim contamos com a diferença, com a mudança – não com o discernimento. Tomem, por exemplo, a ideia do desapego. Dizemos para nós mesmos, “Há dois anos atrás eu era muito apegado, hoje sou menos apegado, e dentro de alguns anos serei ainda menos, eventualmente chegando a um estado no qual serei bastante desapegado.” Portanto pensamos que crescemos do apego para o desapego através do choque constante da experiência, a que chamamos progresso, desenvolvimento do carácter.

Para mim isto não é progresso. Se apreenderem com todo o vosso ser o significado do apego, então não progridem em direcção ao desapego. A mera persecução do desapego não revela a futilidade do apego, que só pode ser compreendido quando a mente e o coração não estão a fugir através da ideia do desapego. Esta compreensão não é ocasionada através do tempo, mas somente na compreensão de que no próprio apego há dor bem como alegria transitória. Então perguntam-me, “O tempo não me ajudará a perceber isso?” O tempo não o fará. O que os fará perceber é ou a transitoriedade da alegria ou a intensidade da dor no apego. Se estiverem plenamente conscientes disto, então já não estão presos à ideia de serem diferentes agora do que eram há alguns anos atrás, e mais tarde de voltarem a ser diferentes. A ideia do tempo progressivo torna-se ilusória.

Colocando as coisas diferentemente, nós pensamos que através da escolha avançaremos, aprenderemos, que através da escolha mudaremos. Escolhemos a maior parte das vezes aquilo que queremos. Não há satisfação na escolha comparativa. A isso que não nos satisfaz chamamos o não essencial, e ao que nos satisfaz, o essencial. Assim estamos constantemente a ser apanhados neste conflito da escolha a partir do qual esperamos aprender. A escolha, então, é apenas os opostos em acção; é o cálculo entre opostos, e não discernimento duradouro. Por isso, desenvolvemo-nos a partir daquilo a que chamamos não essencial para aquilo que pensamos que é essencial, e isso, por sua vez, torna-se o não essencial. Isto é, desenvolvemo-nos a partir do desejo pelo chapéu, que pensávamos ser o essencial e que agora se tornou o não essencial, para aquilo que pensamos ser o essencial, somente para descobrir que isso também é não essencial. Portanto através da escolha pensamos que chegaremos à plenitude da acção, à plenitude da vida.

Conforme disse, para mim a percepção ou o discernimento são intemporais. O tempo não lhes confere o discernimento das experiências; apenas os torna mais hábeis, mais astuciosos, no encontro com as experiências. Mas se perceberem e viverem completamente naquilo que estiverem a experimentar, então esta ideia de mudança do não essencial para o essencial desaparece, e portanto a mente liberta-se da ideia do tempo progressivo.

Vocês contam com o tempo para que os modifique. Dizem para si mesmos, “Através da multiplicação de experiências, tal como na mudança do desejo pelo chapéu para o desejo de Deus, aprenderei a sabedoria, aprenderei a compreensão.” Na acção nascida da escolha não há discernimento, sendo a escolha um cálculo, uma lembrança da acção incompleta. Isto é, enfrentam agora uma experiência parcialmente, com uma influência religiosa, com os preconceitos de distinções sociais ou de classe, e esta mente pervertida, quando enfrenta a vida, cria a escolha; não lhes dá a plenitude da compreensão. Mas se enfrentarem a vida com liberdade, com abertura, com simplicidade, então a escolha desaparece, porque vivem completamente, sem criar o conflito dos opostos.

Pergunta: O que quer dizer conviver integralmente, abertamente, livremente? Por favor dê um exemplo prático. Por favor explique também, com um exemplo prático, como é que na tentativa de viver integralmente, abertamente e livremente uma pessoa se torna consciente das suas limitações que impedem a liberdade, e como tornando-se completamente consciente delas uma pessoa se pode libertar delas.

Krishnamurti: Suponham que eu sou um snobe e não tenho consciência de o ser: isto é, tenho preconceito de classe, e enfrento a vida não tendo consciência desse preconceito. Naturalmente, que, tendo a minha mente distorcida por esta ideia de distinção de classes, eu não posso compreender, não posso enfrentar a vida abertamente, livremente, simplesmente. Ou mais uma vez, se eu fui educado com fortes doutrinas religiosas ou com alguma formação específica, os meus pensamentos e emoções estão pervertidos; com este contexto de preconceito parto para enfrentar a vida, e este preconceito impede naturalmente a minha compreensão completa da vida. Somos aprisionados em tal pano de fundo de tradição e de falsos valores, de distinção de classes e de influências religiosas, de medo e de preconceito. Com esse pano de fundo, com essas normas estabelecidas, tanto internas como externas, partimos tentando enfrentar a vida e tentando compreender. Destes preconceitos surge o conflito, as alegrias transitórias e o sofrimento. Mas nós não temos consciência disto, não temos consciência de que somos escravos de certas formas de tradição, do ambiente social e político, dos falsos valores.

Ora para se libertarem desta escravidão, afirmo, não tentem analisar o passado, o pano de fundo da tradição da qual são escravos e de que não têm consciência. Se você for um snobe, não tente descobrir depois de terminada a sua acção se é ou não um snobe. Esteja totalmente consciente, e através do que diz e através do que faz, o snobismo de que não tem consciência entrará em actividade; então poderá libertar-se dele, porque esta chama da consciência cria um intenso conflito que dissolve o snobismo.

Conforme disse no outro dia, a auto-análise é destrutiva, porque quanto mais se analisam menos acção haverá. A auto-análise tem lugar somente quando o incidente está terminado, quando já passou; então voltam intelectualmente a esse incidente e intelectualmente tentam dissecá-lo, compreendê-lo. Não há compreensão numa coisa morta. Se estiverem antes plenamente conscientes na vossa acção, não como um observador que apenas observa, mas como um actor que está totalmente consumido nessa acção – se estiverem plenamente conscientes disso e não à parte disso, então o processo de auto-análise não existe. Não existe porque estão então a enfrentar a vida integralmente, não estão então separados da experiência, e nessa chama de consciência colocam em actividade todos os vossos preconceitos, todos os falsos padrões que estropiaram a vossa mente; e ao trazê-los à vossa plena consciência libertam-se deles, porque eles criam dissabores e conflito, e através desse mesmo conflito vocês são libertados.

Agarramo-nos à ideia de que o tempo nos dará compreensão. Para mim isto é apenas um preconceito, um obstáculo. Agora suponham que pensam sobre esta ideia durante um momento – não a aceitam, mas pensam sobre ela e desejam descobrir se é verdade. Descobrirão então que só a podem experimentar em acção, não teorizando sobre ela. Então não perguntarão se o que eu digo é verdade – testá-la-ão em acção. Afirmo que o tempo não traz compreensão; quando olham para o tempo como um processo gradual de revelação estão a criar um obstáculo. Só podem testar isto através da acção; somente na experiência podem perceber se esta ideia tem em si algum valor. Mas perderão o seu profundo significado se a tentarem usar como um meio para algo mais. A ideia do tempo como um processo de revelação é um método de protelação cultivado. Não enfrentam aquilo que os confronta porque têm medo; não querem enfrentar a experiência integralmente, quer devido aos vossos preconceitos, quer devido ao desejo de protelar.

Quando torcem um tornozelo, não podem destorcê-lo gradualmente. Esta ideia de que aprendemos através de muitas e crescentes experiências, através da multiplicação da alegria e do sofrimento, é um dos nossos preconceitos, um dos nossos obstáculos. Para descobrir se isto é verdade, têm de agir; nunca descobrirão apenas sentando-se e discutindo sobre isso. Só podem descobrir no movimento da acção, vendo como a vossa mente e o vosso coração reagem, não modelando-os, empurrando-os para um fim específico; então verão que eles estão a reagir de acordo com o preconceito da acumulação. Vocês dizem, “Há dez anos eu era diferente; hoje sou diferente, e daqui a dez anos serei ainda mais diferente”, mas o encontro com as experiências com a ideia de que serão diferentes, que aprenderão gradualmente, impede-os de as compreender, de discernir instantaneamente, integralmente.

Pergunta: Poderia também dar um exemplo prático de como a auto-análise é destrutiva. O seu ensinamento neste ponto surge da sua própria experiência?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, eu não estudei filosofias ou os livros sagrados. Estou a dar-lhes o fruto das minhas próprias experiências. Muitas vezes me perguntam se estudei os livros sagrados, filosofias, e outros escritos que tais. Não estudei. Estou a dizer-lhes o que para mim é verdade, sabedoria, e compete-lhes a vocês, que são instruídos, descobrir. Eu penso que nesse mesmo processo de acumulação a que chamamos aprendizagem reside o nosso infortúnio. Quando está sobrecarregada com conhecimento, com aprendizagem, a mente está estropiada – não que não devamos ler. Mas a sabedoria não é para ser comprada; deve ser experimentada na acção. Penso que isso responde à segunda parte da pergunta.

Responderei à pergunta de um modo diferente, e espero explicá-la mais claramente. Porque pensam que devem analisar-se? Porque não viveram integralmente as experiências, e essa experiência lhes criou uma perturbação. Por isso dizem para vocês mesmos, “Da próxima vez que a enfrente devo estar preparado, portanto deixa-me olhar para o incidente que passou, e aprenderei com ele; então enfrentarei a próxima experiência integralmente, e ela então não me perturbará.” Portanto começam a analisar, o que é um processo intelectual, e por isso não totalmente verdadeiro; como não a compreenderam completamente, dizem: “Aprendi algo da experiência passada; agora, com esse pequeno conhecimento, deixa-me enfrentar a próxima experiência com a qual aprenderei um pouco mais.” Assim nunca vivem completamente na própria experiência; este processo intelectual de aprendizagem, acumulação, continua sempre.

É isto que fazem diariamente, só que inconscientemente. Não têm o desejo de enfrentar a vida harmoniosamente, completamente; pensam antes que aprenderão a enfrentá-la harmoniosamente através da análise; isto é, acrescentando pouco a pouco ao celeiro da mente, esperam ficar cheios, e ser capazes de enfrentar a vida integralmente, plenamente. Mas a vossa mente nunca se tornará livre através deste processo; cheia poderá ficar – mas nunca livre, aberta, simples. E o que os impede de ser simples, abertos, é este processo constante de analisar um incidente do passado, que deve necessariamente ser incompleto. Só pode haver compreensão completa no preciso momento da própria experiência. Quando estão numa grande crise, quando tem de haver acção, então vocês não analisam, não calculam; põem tudo isso de parte, porque nesse momento a vossa mente e coração estão em harmonia criativa e existe acção verdadeira.

Pergunta: Qual é a sua opinião relativamente às práticas religiosas, cerimoniais e do oculto – só para mencionar algumas actividades que ajudam o ser humano? A sua atitude em relação a elas é apenas de completa indiferença, ou é de antagonismo?

Krishnamurti: Dedicar-se a essas práticas parece-me um desperdício de esforço. Quando diz “prática”, quer dizer seguir um método, uma disciplina, que você espera lhe dê a compreensão da verdade. Falei muito sobre isto, e não tenho tempo para me ocupar profundamente deste assunto outra vez. Toda a ideia de seguir uma disciplina torna a mente e o coração rígidos e consistentes. Tendo já traçado um plano de conduta e desejando ser consistente, você diz para si mesmo, “Devo fazer isto e não devo fazer aquilo”, e a sua memória dessa disciplina guia-o através da vida. Isto é, devido ao medo dos dogmas religiosos e da situação económica, você enfrenta as experiências parcialmente, através do véu destes métodos e disciplinas. Enfrenta a vida com medo, o que cria preconceitos; portanto há compreensão incompleta, e daqui surgem conflitos. E para vencer estes conflitos encontra um método, uma disciplina, em conformidade com o qual julga, “Devo” e “Não devo”. Portanto, tendo estabelecido uma coerência, uma norma, disciplina-se de acordo com ela através de memória constante, e a isto chama autodisciplina, práticas ocultas. Eu digo que tal autodisciplina, tal prática, este contínuo ajustamento a um padrão ou o não ajustamento a um padrão, não liberta a mente. O que liberta a mente é enfrentar a vida integralmente, sendo totalmente consciente, o que não requer prática. Não podem dizer a si mesmos, “Tenho que estar consciente, tenho que estar consciente.” A consciência chega na intensidade completa da acção. Quando sofrem enormemente, quando rejubilam enormemente, nesse momento enfrentam a vida com plena consciência, e não com uma consciência dividida; então enfrentam todas as coisas completamente, e nisto há liberdade.

No que respeita às cerimónias religiosas, o assunto é muito simples no meu ponto de vista. Uma cerimónia é apenas uma sensação glorificada. Alguns de vocês provavelmente não concordam com esta opinião. Sabem, acontece com as cerimónias religiosas o que acontece com a pompa mundana: quando um rei reúne a corte, os espectadores são tremendamente impressionados e enormemente explorados. A razão pela qual a maioria das pessoas vão à igreja é para encontrar conforto, para fugir, para explorar e ser explorada; e se alguns de vocês ouviram o que tenho estado a dizer durante os últimos cinco ou seis dias, terão compreendido a minha atitude e acção com respeito às cerimónias.

“A sua atitude para com elas é apenas de completa indiferença, ou é de antagonismo?” A minha atitude nem é indiferente nem é antagónica. Afirmo que detêm sempre a semente da exploração, e por isso são pouco inteligentes e injustas.

Pergunta: Uma vez que não procura seguidores, então porque pede às pessoas para deixarem as suas religiões e seguir o seu conselho? Está preparado para arcar com as consequências de tal conselho? Ou quer dizer que as pessoas necessitam de orientação? Se não, afinal porque discursa?

Krishnamurti: Lamento, nunca criei tal coisa como um seguidor. Nunca disse a ninguém, “Deixe a sua igreja e siga-me.” Isso seria apenas pedir-lhes para virem para outra igreja, para outra prisão. Eu afirmo que seguindo alguém se tornam escravos, pouco inteligentes; tornam-se uma máquina, um autómato imitativo. Ao seguirem alguém nunca poderão descobrir o que é a vida, o que é a eternidade. Afirmo que todo o seguimento de alguém é destrutivo, cruel, conduzindo à exploração. Estou interessado em lançar a semente. Não lhes estou a pedir que me sigam. Afirmo que o próprio seguimento de alguém é a destruição dessa vida, desse devir eterno. Colocando a questão de outra maneira, ao seguirem alguém destroem a possibilidade de descobrir a verdade, a eternidade. Porque seguem? Porque querem ser guiados, querem ser ajudados. Pensam que não podem compreender; por isso dirigem-se a outro e aprendem a sua técnica, e tornam-se escravos do seu método. Tornam-se o explorador e o explorado, e contudo esperam que praticando continuamente esse método libertarão o pensamento criativo. Nunca poderão soltar o pensamento criativo seguindo alguém. É somente quando começam a questionar a própria ideia de seguir alguém, de estabelecer autoridades e adorá-las, que poderão descobrir o que é a verdade; e a verdade libertará a vossa mente e o vosso coração.

“Quer dizer que as pessoas necessitam de orientação?” Eu afirmo que as pessoas não precisam de orientação; precisam de despertar. Se forem orientados para certas acções rectas, essas acções deixam de ser rectas; são apenas imitativas, forçadas. Se vocês próprios, através do questionamento, através da consciência contínua, descobrirem valores verdadeiros – e só podem fazer isto por vocês próprios e de nenhuma outra maneira – então toda a questão de seguir alguém, de orientação, perde o seu significado. A sabedoria não é algo que chegue através da orientação, através de seguir alguém, através da leitura de livros. Não podem aprender sabedoria em segunda mão, contudo é isso que estão a tentar fazer. Portanto dizem, “Guiem-me, ajudem-me, libertem-me.” Mas assevero, tenham cuidado com o homem que os ajuda, que os liberta.

“Afinal porque discursa?” Isso é muito simples: porque não o posso evitar, e também porque há tanto sofrimento, tanta alegria que se desvanece. Para mim existe um devir eterno que é um êxtase; e quero mostrar que esta existência caótica pode ser mudada para uma cooperação ordenada e inteligente na qual o indivíduo não é explorado. E isto não se faz através de uma filosofia oriental, através de se sentarem sob uma árvore, retirando-se da vida, mas todo o contrário: é através da acção que descobrirão, quando estiverem plenamente despertos, completamente conscientes em grande dor ou em grande alegria. Esta chama da consciência consome todos os obstáculos auto-criados que destroem e pervertem a inteligência criativa do homem. Mas a maioria das pessoas, quando experimenta sofrimento, procura alívio imediato ou tenta, através da memória, agarrar uma alegria fugaz. Deste modo estão constantemente em fuga. Mas assevero-lhes, tornem-se conscientes, e vocês próprios libertarão a vossas mentes do medo; e esta liberdade é a compreensão da verdade.

Pergunta: A sua experiência da realidade é algo peculiar para este tempo? Se não, porque é que não foi possível no passado?

Krishnamurti: Certamente que a realidade, a eternidade, não pode ser condicionada pelo tempo. Pretende perguntar se as pessoas não procuraram ou lutaram pela realidade através dos séculos. Para mim, essa própria luta pela verdade impediu-as de compreenderem.

Pergunta: O senhor diz que o sofrimento não nos pode dar compreensão, mas apenas pode despertar-nos. Se assim é, porque é que o sofrimento não cessa quando ficamos totalmente despertos?

Krishnamurti: É precisamente isso. Não são plenamente despertos pelo sofrimento. Suponham que alguém morre. Que acontece? Querem alívio imediato daquela mágoa; portanto aceitam uma ideia, uma crença, ou procuram divertimentos. Ora o que é que aconteceu? Houve verdadeiro sofrimento, uma luta desperta, um choque, e para vencer esse choque, esse sofrimento, aceitaram uma ideia tal como a reencarnação, ou a fé no além, ou a crença na comunicação com os mortos: tudo isto são formas de fuga. Isto é, quando estão despertos há conflito, luta, a que se chama sofrimento; mas imediatamente querem pôr essa luta de lado, esse despertar; anseiam pelo esquecimento através de uma ideia, uma teoria, ou através de uma explicação, que é apenas um processo de voltar novamente a adormecer.

Portanto este é o processo diário da existência: são despertados através do impacto com a vida, com a experiência, o que causa sofrimento, e querem ser confortados; portanto procuram pessoas, ideias, explicações, que lhes dêem conforto, satisfação, e isto cria o explorador e o explorado. Mas se naquele estado de intenso questionamento, que é sofrimento, se naquele estado de interesse desperto, enfrentarem as experiências integralmente, então descobrirão o verdadeiro valor e significado de todos os refúgios humanos e de todas ilusões que vocês criaram; e a compreensão deles, por si só, libertá-los-á do sofrimento.

Pergunta: Qual é o caminho mais curto para nos livrarmos das nossas preocupações e dissabores e ressentimentos e alcançar a felicidade e a liberdade?

Krishnamurti: Não há um caminho mais curto; mas os próprios ressentimentos, preocupações e dissabores libertam-nos se não tentarem fugir-lhes através do desejo de liberdade e felicidade. Dizem que querem liberdade e felicidade porque os ressentimentos e os dissabores são difíceis de suportar. Portanto estão apenas a fugir deles, não compreendem porque eles existem; não compreendem porque têm preocupações, porque têm dissabores, ressentimentos, amargura, sofrimento, e alegria transitória. E uma vez que não compreendem, querem conhecer o caminho mais curto para sair da confusão. Eu digo, tenham cuidado com o homem que lhes mostra o caminho de saída mais curto. Não há saída para o sofrimento e para a aflição excepto através desse próprio sofrimento e dessa própria aflição. Esta não é uma declaração difícil; compreendê-la-ão se reflectirem sobre ela. No momento em que pararem de tentar fugir compreenderão; não podem senão compreender, porque então já não estão enredados em explicações. Quando todas as explicações tiverem cessado, quando já não tiverem qualquer significado, então existe a verdade. Ora vocês estão à procura de explicações; estão à procura do caminho mais curto, do método mais rápido; contam com práticas, com cerimoniais, com a mais recente teoria da ciência. Tudo isto são fugas. Mas quando realmente compreenderem a ilusão da fuga; quando estiverem integralmente a confrontar a coisa que cria conflito dentro de vocês, então essa própria coisa libertá-los-á.

Ora a vida cria grandes perturbações em vocês, problemas de posse, sexo, ódio. Portanto dizem, “Deixa-me encontrar uma vida superior, uma vida divina, uma vida de não-posse, uma vida de amor.” Mas a vossa própria luta por uma vida assim é apenas uma fuga dessas perturbações. Se se tornarem conscientes da falsidade da fuga, o que só podem compreender quando há conflito, então verão como a vossa mente está habituada a fugir. E quando tiverem parado de fugir, quando a vossa mente já não estiver à procura de uma explicação, que é apenas uma droga, então isso mesmo de que estavam a tentar fugir revela o seu pleno significado. Esta compreensão liberta a mente e o coração do sofrimento.

Pergunta: Não tem qualquer fé no poder da Divindade que traça o destino do homem? Se não a tem, é então um ateu?

Krishnamurti: A crença de que há uma Divindade que pode talhar o homem é um dos obstáculos do homem; mas quando eu o digo, isso não significa que eu seja um ateu. Penso que as pessoas que dizem que acreditam em Deus são ateus, e não só aqueles que não acreditam em Deus, porque tanto umas como outras são escravas de uma crença.

Não podem acreditar em Deus; têm que acreditar em Deus somente quando não há compreensão, e não podem ter compreensão procurando-a. Mais precisamente, quando a vossa mente está realmente livre de todos os valores, que se tornaram o próprio centro da consciência do ego, então existe Deus. Temos uma ideia de que algum milagre nos mudará; pensamos que alguma influência divina ou externa provocará mudanças em nós e no mundo. Temos vivido nessa esperança durante séculos, e é isso que se passa como o mundo – caos completo, irresponsabilidade na acção, porque pensamos que alguém vai fazer tudo por nós. Descartar esta falsa ideia não significa que tenhamos que nos voltar para o seu oposto. Quando libertamos a mente de opostos, quando vemos a falsidade da crença de que alguém está a olhar por nós, então uma nova inteligência despertou em nós.

Querem saber o que é Deus, o que é a verdade, o que é a vida eterna; por conseguinte perguntam-me “É ateu ou teísta? Se é um crente em Deus, então diga-me o que é Deus.” Afirmo que para o homem que descreve o que é a verdade ou Deus, a verdade não existe. Quando é posta na gaiola das palavras, então a verdade já não é uma realidade viva. Mas se compreenderem os falsos valores em que estão presos, se se libertarem deles, então há uma realidade eterna.

Pergunta: Quando sabemos que o nosso modo de viver inevitavelmente repugnará outros e produzirá um equívoco completo nas suas mentes, como devemos agir, se queremos respeitar os seus sentimentos e os seus pontos de vista?

Krishnamurti: Esta pergunta parece tão simples que não vejo onde reside a dificuldade. “Como devemos agir para não perturbar os outros? É isso o que quer saber? Receio bem que então não deveríamos agir. Se viver completamente, as suas acções podem causar perturbação; mas o que é mais importante: descobrir o que é a verdade, ou não perturbar os outros? Isto parece tão simples que mal precisa de ser respondido. Porque quer respeitar os sentimentos e os pontos de vista das outras pessoas? Tem medo de ficar com os seus próprios sentimentos feridos, de que os seus pontos de vista sejam mudados? Se as pessoas têm opiniões que diferem das suas, só podem descobrir se são verdadeiras se as questionar, se entrar em contacto com elas. E se descobrir que aquelas opiniões e aqueles sentimentos não são verdadeiros, a sua descoberta pode causar perturbação àqueles que as apreciam. Então o que deveria fazer? Deveria agir de acordo com elas, ou comprometer-se com elas para não ferir os seus amigos?

Pergunta: Acha que a comida pura tem algo a ver com a realização das suas ideias de vida? É vegetariano? (Riso)

Krishnamurti: Sabem, o humor é impessoal. Espero que o interlocutor não fique magoado quando as pessoas riem. Se eu for vegetariano, e daí? Não é o que vai para a vossa boca que os libertará, mas sim a descoberta dos verdadeiros valores, dos quais surge a acção completa.

Pergunta: A sua mensagem de distanciamento desinteressado, de desapego, tem sido pregada em todas as épocas e em muitas fés a uns poucos discípulos escolhidos. O que o faz pensar que esta mensagem é agora adequada para todos numa sociedade humana onde há a necessidade de interdependência em todas as acções sociais?

Krishnamurti: Lamento muito, mas nunca disse que se deve estar remotamente desinteressado, que se deve ser desapegado; antes pelo contrário. Portanto, primeiro por favor compreenda o que digo, e depois veja se tem algum valor.

Tomemos a questão do desapego. Sabem, durante séculos temos estado a amontoar, a acumular, a tornar-nos seguros. Intelectualmente podem ver a parvoíce da posse, e dizem para vocês mesmos, “Deixa-me ser desapegado.”. Ou antes, não vêem a sua parvoíce; portanto começam a praticar o desapego, que é apenas outra maneira de obter, de armazenar. Porque se realmente perceberem a parvoíce da posse, então estarão livrs tanto do desapego como do seu oposto. O resultado não é uma inactividade remota, mas antes, acção completa. Sabem, nós somos escravos da legislação. Se amanhã passasse uma lei decretando que não deveríamos possuir propriedades, seríamos forçados a respeitá-la, com uma boa dose de queixas. Haveria aí também segurança, a segurança da não-posse. Portanto eu digo, não sejam o joguete da legislação, mas descubram precisamente a coisa de que são escravos – isto é, da aquisitividade. Descubram o seu verdadeiro significado, sem fugir para o desapego; descubram como lhes confere distinções sociais, poder, conduzindo a uma vida vazia e superficial. Se renunciarem às posses sem as compreenderem, terão o mesmo vazio da não-posse – a sensação de segurança no ascetismo, no desapego, que se tornará o refúgio para o qual se retirarão em tempos de conflito. Enquanto houver medo tem que haver a persecução de opostos; mas se a mente se libertar da verdadeira causa do medo, que é a auto-consciência, o “eu”, então haverá realização, plenitude de acção.

A Arte de Escutar

Frognerseteren, Noruega - 4ª palestra 12 de setembro, 1933.

Jiddu Krishnamurti. A Arte de Escutar. Filosofia. Textos de J.Krishnamurti em Português.

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