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A Arte de Escutar

Adyar - 1ª palestra 29 de dezembro, 1933.

O Sr. Warrington, o Presidente Interino da Sociedade Teosófica, amavelmente me convidou a vir a Adyar e dar algumas palestras aqui. Estou muito satisfeito de ter aceite o seu convite e aprecio a sua amizade, que espero continuará, muito embora possamos divergir completamente nas nossas ideias e opiniões.

Espero que todos ouçam as minhas palestras sem preconceito, e não pensem que estou a tentar atacar a vossa sociedade. Quero fazer outra coisa muito diferente. Quero estimular o desejo da verdadeira busca, e isto, penso eu, é tudo o que um professor pode fazer. É tudo o que quero fazer. Se eu puder despertar esse desejo em vocês, terei cumprido a minha tarefa, porque desse desejo chega a inteligência, aquela inteligência que está livre de qualquer sistema e de qualquer crença organizada. Esta inteligência está para além de qualquer pensamento de compromisso e falso ajustamento. Portanto durante estas palestras, aqueles de entre vocês que pertençam às várias sociedades ou grupos, por favor tenham em mente que estou muito grato à Sociedade Teosófica e ao seu Presidente Interino por me terem pedido para vir aqui falar, e que não estou a atacar a Sociedade Teosófica. Não estou interessado em atacar. Mas afirmo que embora as organizações para o bem-estar social do homem sejam necessárias, as sociedades baseadas em esperanças e crenças religiosas são perniciosas. Portanto, ainda que possa parecer que falo de modo áspero, por favor lembrem-se que não estou a atacar qualquer sociedade em particular, mas que estou contra todas estas falsas organizações que, embora professem ajudar o homem, são na realidade um grande obstáculo e são um meio de exploração constante.

Quando a mente está cheia de crenças, ideias, e conclusões definitivas a que chama conhecimento e que se torna sagrado, então o movimento infinito do pensamento cessa. É o que está a acontecer à maioria das mentes. Aquilo a que chamamos conhecimento é apenas acumulação; impede o livre movimento do pensamento, no entanto mantemo-nos fiéis a ele e adoramos esse pretenso conhecimento. Assim a mente fica enredada, emaranhada nele. É somente quando a mente é libertada de toda esta acumulação, das crenças, dos ideais, dos princípios, das memórias, que existe o pensamento criativo. Não podem pôr de parte cegamente a acumulação; só podem ficar livres dela quando a compreenderem. Então há pensamento criativo; então há movimento eterno. A mente já não está separada da acção.

Ora as crenças, os ideais, as virtudes, e as ideias santificadas que perseguem, e às quais chamam conhecimento, impedem o pensamento criativo e põem assim termo ao amadurecimento do pensamento. Porque pensamento não significa o seguimento de um canal específico de ideias, hábitos e tradições estabelecidos. O pensamento é crítico; é uma coisa à parte do conhecimento herdado ou adquirido. Quando apenas aceitam ideias, tradições, não estão a pensar, e há uma lenta estagnação. Vocês dizem-me, “Temos crenças, temos tradições, temos princípios; não estarão correctos? Devemos livrar-nos deles?” Não vou dizer que devem livrar-se deles ou que não devem. De facto, é precisamente a vossa prontidão em aceitar a ideia de que devem ou não livrar-se destas crenças e tradições que os impede de pensar; estão já num estado de aceitação, e por conseguinte não têm a capacidade de ser críticos.

Estou a falar com indivíduos, não com organizações ou grupos de indivíduos. Falo-lhes como indivíduos, não para um grupo de pessoas possuindo certas crenças. Se a minha palestra tiver algum valor para vocês, tentem pensar por si mesmos, não com a consciência de grupo. Não pensem com os princípios com os quais já se comprometeram, porque eles são apenas formas subtis de conforto. Dizem, “Pertenço a uma certa sociedade, a um certo grupo. Fiz certas promessas a esse grupo e aceitei dele certos benefícios. Como posso pensar separadamente destas condições e promessas? Que devo fazer?” Eu digo, não pensem em termos de compromissos, porque eles impedem-nos de pensar criativamente. Onde existe a mera aceitação não pode haver pensamento criativo, livre e fluente que por si só é inteligência suprema, que por si só é felicidade. O pretenso conhecimento que adoramos, que nos empenhamos em obter lendo livros, impede o pensamento criativo.

Mas porque eu digo que tal conhecimento e que tal leitura impedem o pensamento criativo, não se voltem imediatamente para o oposto. Não digam: “Não devemos ler de todo?” Estou a falar destas coisas porque lhes quero mostrar o seu significado inerente; não os quero impelir para o oposto.

Agora, se a vossa atitude for uma de aceitação, vivem com medo da crítica, e quando surge a dúvida, como tem que surgir, vocês cuidadosa e diligentemente destroem-na. Contudo é somente através da dúvida, através da crítica, que se podem realizar; e o objectivo da vida é realizar, não acumular, não alcançar, como presentemente explicarei. A vida é um processo de busca, não de buscar um fim específico, mas de libertar a energia criativa, a inteligência criativa do homem; é um processo de movimento eterno, livre de crenças, de conjuntos de ideias, de dogmas, ou do pretenso conhecimento.

Portanto quando falo de crítica, por favor não sejam partidários. Eu não pertenço às vossas sociedades; não detenho as vossas opiniões e ideais. Estamos aqui para examinar, não para tomar partido. Por isso por favor acompanhem o que vou dizer com espírito aberto, e tomem partido – se tiverem que tomar partido – após estas palestras estarem concluídas. Porque tomam partido? Pertencer a um grupo específico transmite-lhes uma ideia de conforto, de segurança. Pensam que porque detêm certas ideias ou princípios, desse modo amadurecerão. Mas no presente, tentem não tomar partido. Tentem não ser influenciados pelo grupo específico a que agora pertencem, e não tentem também tomar o meu partido. Tudo o que têm a fazer durante estas palestras é examinar, ser críticos, duvidar, descobrir, procurar, aprofundar os problemas á vossa frente.

Vocês estão habituados à oposição, não à crítica. (Quando digo “vocês”, por favor não pensem que estou a falar com uma atitude de superioridade.) Dizia que não estão habituados à crítica, e através desta falta de crítica esperam desenvolver-se espiritualmente. Pensam que através desta destruição da dúvida, livrando-se da dúvida, avançarão, porque ela foi colocada perante vocês como um das qualidades necessárias para o progresso espiritual; e são desse modo explorados. Mas na vossa cuidadosa destruição da dúvida, no facto de terem posto de parte a crítica, apenas desenvolveram oposição. Vocês dizem, “As escrituras são a minha autoridade para isto”, ou “Os professores disseram isso”, ou “Eu li isto.” Por outras palavras, mantêm-se fiéis a certas crenças, a certos dogmas, a certos princípios com os quais se opõem a qualquer situação nova e contraditória, e imaginam que estão a pensar, que são críticos, criativos. A vossa posição é como a de um partido político que age apenas em oposição. Se forem verdadeiramente críticos, criativos, jamais simplesmente se oporão; estarão então preocupados com realidades. Mas se a vossa atitude for apenas uma de oposição, então a vossa mente não se encontrará com a minha; então não compreenderão o que estou a tentar transmitir.

Portanto quando a mente está habituada à oposição, quando foi cuidadosamente treinada, através da suposta educação, através da tradição e da crença, através de sistemas religiosos e filosóficos, para adquirir esta atitude de oposição, ela naturalmente não tem a capacidade de criticar e de duvidar verdadeiramente. Mas se me quiserem compreender, esta é a primeira coisa que devem ter. Por favor não fechem as vossas mentes àquilo que estou a dizer. A crítica verdadeira é o desejo de descobrir. A faculdade de criticar só existe quando querem descobrir o valor inerente de uma coisa. Mas vocês não estão habituados a isso. As vossas mentes são inteligentemente treinadas para atribuir valores, mas por esse processo nunca compreenderão o significado inerente de uma coisa, de uma experiência, ou de uma ideia.

Para mim, portanto, a verdadeira crítica consiste em tentar descobrir o valor intrínseco da coisa em si, e não em atribuir uma qualidade a essa coisa. Vocês atribuem uma qualidade a um meio, a uma experiência, somente quando querem obter algo deles, quando querem ganhar ou ter poder ou felicidade. Ora isto destrói a verdadeira crítica. O vosso desejo é pervertido através da atribuição de valores, e por conseguinte não podem ver claramente. Em vez de tentar ver a flor na sua beleza original e completa, vocês olham para ela através de vidros coloridos, e por isso nunca a podem ver como ela é.

Se querem viver, desfrutar, apreciar a imensidade da vida, se realmente a querem compreender, não apenas repetir, como um papagaio, o que lhes foi ensinado, o que lhes foi repetido inúmeras vezes, então a vossa primeira tarefa é retirar as perversões que os enredam. E garanto-lhes que esta é uma das tarefas mais difíceis, porque estas perversões fazem parte da vossa formação, fazem parte da vossa educação em crianças, e é muito difícil desligarem-se delas.

A atitude crítica requer ausência da ideia de oposição. Por exemplo, vocês dizem-me, “Nós acreditamos em Mestres; você não. O que tem a dizer a isto?” Ora essa não é uma atitude crítica; é, mas por favor não pensam que estou a falar rudemente, uma atitude infantil. Estamos a discutir se certas ideias são em si fundamentalmente verdadeiras, não se ganharam algo com essas ideias; porque o que ganharam podem ser apenas perversões, preconceitos.

O meu objectivo durante esta série de palestras é despertar a vossa própria capacidade crítica, para que os professores se tornem desnecessários para vocês, para que não sintam a necessidade de conferências, de sermões, para que compreendam por vocês próprios o que é verdade e vivam completamente. O mundo será um lugar mais feliz quando não houver mais professores, quando um homem já não sentir que tem que pregar ao seu próximo. Mas esse estado só pode acontecer quando vocês, como indivíduos, estiverem realmente despertos, quando duvidarem enormemente, quando tiverem verdadeiramente começado a questionar no meio do sofrimento. Então deixam de sofrer. Sufocaram as vossas mentes com explicações, com conhecimento; endureceram os vossos corações. Não estão interessados no sentimento, mas sim nas crenças, nas ideias, na santidade do pretenso conhecimento, e por isso estão famintos; já não são seres humanos, mas meras máquinas.

Vejo que abanam as cabeças. Se não concordam comigo, façam-me perguntas amanhã. Escrevam as vossas perguntas e entreguem-mas, e eu responderei. Mas esta manhã vou falar, e espero que acompanhem o que tenho para dizer.

Não há lugar de descanso na vida. O pensamento não pode ter lugar de descanso. Mas vocês estão à procura desse tal lugar de descanso. Nas vossas várias crenças, religiões, procuraram esse lugar de descanso, e nesta procura deixaram de ser críticos, de fluir com a vida, de desfrutar, de viver amplamente.

Conforme disse, a verdadeira procura – que é diferente da procura de um objectivo, ou da procura de ajuda, ou da persecução de ganho – a verdadeira procura resulta na compreensão do valor intrínseco da experiência. A verdadeira procura é um rio que se move veloz, e neste movimento há compreensão, um eterno devir. Mas a procura de orientação resulta apenas num alívio temporário, que significa a multiplicação de problemas e um aumento das suas soluções. Ora o que é que procuram? Qual destas é que querem? Querem procurar, descobrir, ou querem encontrar ajuda, orientação? A maioria de vocês quer ajuda, alívio temporário do sofrimento; querem curar os sintomas mais do que encontrar a causa do sofrimento. “Estou a sofrer”, dizem vocês, “dê-me um método que me liberte do sofrimento.” Ou dizem, “O mundo está numa situação caótica. Dêem-nos um sistema que resolva os seus problemas, que produza ordem.”

Assim, a maior parte de vocês procuram alívio temporário, refúgio temporário, e contudo chamam a isso a procura da verdade. Quando falam de serviço, de compreensão, de sabedoria, estão a pensar apenas em termos de conforto. Enquanto apenas quiserem aliviar o conflito, a luta, o desentendimento, o caos, o sofrimento, são como um médico que lida apenas com os sintomas da doença. Enquanto estiverem apenas interessados em encontrar conforto, não estão realmente à procura.

Agora vamos ser bastante francos. Podem ir longe se forem realmente francos. Vamos admitir que tudo o que estão a procurar é segurança, alívio; estão a procurar segurança da mudança constante, alívio da dor. Porque são insuficientes dizem, “Por favor dê-me suficiência.” Portanto aquilo a que chamam procura da verdade é realmente uma tentativa para encontrar alívio da dor, o que nada tem a ver com a realidade. Em coisas que tais somos como crianças. Em tempo de perigo corremos para a nossa mãe, sendo essa mãe a crença, o guru, a religião, a tradição, o hábito. Aqui nos refugiamos, e por isso as nossas vidas são vidas de imitação constante, sempre sem um momento de valiosa compreensão.

Depois podem concordar com as minhas palavras, dizendo, “Tem toda a razão; não procuramos a verdade, mas alívio, e esse alívio é satisfatório de momento.” Se estão satisfeitos com isto, nada mais há a dizer. Se tiverem essa atitude, o melhor é não dizer mais nada. Mas, graças a Deus! Nem todos os seres humanos têm essa atitude. Nem todos alcançaram o estado de estar satisfeitos com as suas próprias pequenas experiências a que chamam conhecimento, e que é estagnação.

Ora quando dizem, “Estou à procura”, dão a entender que estão à procura do desconhecido. Desejam o desconhecido, e esse é o objecto da vossa busca. Porque o conhecido é para vocês aterrador, insatisfatório, inútil, carregado de dor, querem descobrir o desconhecido, e por isso inquirem, “O que é a verdade? O que é Deus?”. Daqui surge a pergunta, “Quem me ajuda a alcançar a verdade?” Precisamente nessa tentativa de encontrar a verdade ou Deus criam gurus, professores, que se tornam os vossos exploradores.

Por favor não se ofendam com as minhas palavras, não fiquem com ideias preconcebidas contra o que estou a dizer, e não pensem que faço isto por não ter nada melhor para fazer. Estou apenas a mostrar-lhes a causa de serem explorados, que é a vossa procura de uma meta, de um fim; e quando compreenderem a falsidade da causa, essa compreensão libertá-los-á. Não lhes estou a pedir que sigam os meus ensinamentos, porque se desejarem compreender a verdade devem permanecer completamente sozinhos.

Qual é uma das coisas mais importantes em que estão interessados na vossa procura do desconhecido? “Diga-me o que está no outro lado”, dizem vocês, “diga-me o que acontece a uma pessoa depois da morte.” À resposta a tais perguntas vocês chamam conhecimento. Portanto quando se interrogam sobre o desconhecido, encontram uma pessoa que lhes oferece uma explicação satisfatória sobre isso, e refugiam-se nessa pessoa ou na ideia que ela lhes dá. Por esse motivo essa pessoa ou essa ideia tornam-se o vosso explorador, e vocês próprios são responsáveis por essa exploração, não o homem ou a ideia que os explora. De tal interrogação sobre o desconhecido nasce a ideia de um guru que os conduzirá à verdade. De tal interrogação chega a confusão sobre o que é a verdade, porque, na vossa procura do desconhecido, cada professor, cada guia, oferece-lhes uma explicação sobre o que é a verdade, e essa explicação naturalmente depende dos seus próprios preconceitos e ideias; mas através desse ensinamento vocês esperam aprender o que é a verdade. A vossa procura do desconhecido é apenas uma fuga. Quando conhecerem a causa real, quando compreenderem o conhecido, não se interrogarão sobre o desconhecido.

A procura da verdade e a diversidade de ideias sobre a verdade não produzirá compreensão. Vocês dizem para si próprios, “Vou ouvir este professor, depois ouvirei outra pessoa, depois outra; e aprenderei de cada um os vários aspectos da verdade.” Mas por este processo nunca compreenderão. Tudo o que fazem é fugir; tentam encontrar aquilo que lhes dê maior satisfação, e àquele que lhes der mais aprecia-lo-ão como o vosso guru, como o vosso ideal, como a vossa meta. Portanto a vossa procura da verdade terminou.

Agora não pensem que o facto de eu lhes mostrar a futilidade desta procura é apenas engenho da minha parte: estou a explicar-lhes a razão da exploração que está a ocorrer em todo o mundo em nome da religião, em nome do governo, em nome da verdade.

O desconhecido não lhes diz respeito. Tenham cuidado com o homem que lhes descreve o desconhecido, a verdade, ou Deus. Tal descrição do desconhecido oferece-lhes um meio de fuga – e além disso, a verdade desafia qualquer descrição. Nessa fuga não há compreensão, não há realização. Na fuga só existe rotina e decadência. A verdade não pode ser explicada nem descrita. Ela é. Afirmo que existe uma beleza que não pode ser posta em palavras; se o fosse, seria destruída; então já não seria a verdade. Mas vocês não podem conhecer esta beleza, esta verdade, perguntando sobre ela; só a podem conhecer quando tiverem compreendido o conhecido, quando tiverem alcançado o significado total disso que está perante vocês.

Portanto estão constantemente a procurar fugas, e dignificam estas tentativas de fuga com variados nomes espirituais, com palavras altamente e imponentemente sonantes; estas fugas satisfazem-nos temporariamente, isto é, até que a próxima tempestade de sofrimento chegue e arrase o vosso refúgio.

Vamos por agora pôr de lado este desconhecido, e preocupar-nos com o conhecido. Ponham de lado, por agora, as vossas crenças, a vossa escravidão das tradições, a vossa dependência no vosso Bhagavad Gita, nas vossas escrituras, nos vossos Mestres. Não estou a atacar as vossas crenças favoritas, as vossas sociedades favoritas; estou a dizer-lhes que se quiserem compreender a verdade do que digo, têm que tentar escutar sem ideias preconcebidas.

Através dos nossos variados sistemas de educação – que podem ser a formação universitária, ou o seguimento de um guru, ou a dependência no passado na forma de tradição e de hábito, que cria a incompletude do presente – através destes sistemas de educação temos sido encorajados a obter, a adorar o sucesso. Todo o nosso sistema de pensamento, bem como toda a nossa estrutura social, está baseada na ideia de obtençãoo. Olhamos para o passado porque não podemos compreender o presente. Para compreender o presente, que é experiência, a mente tem que estar aliviada das tradições e dos hábitos passados. Enquanto o peso do passado nos dominar, não podemos compreender, não podemos colher integralmente o perfume de uma experiência. Portanto tem que haver incompletude enquanto houver a procura de obtenção. Que todo o nosso sistema de pensamento está baseado na obtenção não é uma mera suposição hipotética da minha parte; é um facto. E a ideia central da nossa estrutura social é também uma de obtenção, de consecução, de sucesso.

Mas porque eu disse que a vossa procura desta ideia de obtenção não resultará no viver completo, não pensem por isso em termos de oposto. Não digam, “Não devemos procurar? Não devemos obter? Não devemos ter sucesso?” Isto demonstra pensamento limitado. O que quero que façam é questionar a ideia de obtenção. Conforme disse, toda a estrutura social, económica, e pseudo espiritual do nosso mundo está baseada nesta ideia central de lucro: lucro da experiência, lucro da vida, lucro dos professores. E desta ideia de lucro gradualmente cultivam em si próprios a ideia de medo, porque na vossa procura de lucro estão sempre com medo da perda. Portanto, tendo este medo da perda, este medo de perder uma oportunidade, criam o explorador, seja ele o homem que os guia moralmente, espiritualmente, ou uma ideia à qual se apegam. Têm medo e querem coragem; por isso a coragem se torna no vosso explorador. Uma ideia torna-se o vosso explorador.

A vossa tentativa de consecução, de lucro, é apenas uma fuga, uma fuga da insegurança. Quando falam de ganho estão a pensar em segurança; e após estabelecerem a ideia de segurança, querem encontrar um método de obter e manter essa segurança. Não é assim? Se tiverem em consideração a vossa vida, se a examinarem criticamente, descobrirão que ela se baseia no medo. Estão sempre a cuidar de ganhar; e depois de procurarem e encontrarem as vossas seguranças, após constituí-las como os vossos ideais, voltam-se para alguém que lhes oferece um método, um plano, para alcançar e proteger os vossos ideais. Por isso dizem, “Para alcançar essa segurança, tenho que me comportar de uma certa maneira; tenho de procurar a virtude, tenho que servir e obedecer, tenho que seguir gurus, professores e sistemas; tenho que estudar e praticar para obter o que quero.” Por outras palavras, uma vez que o vosso desejo é segurança, encontram exploradores que os ajudarão a obter o que querem. Portanto vocês, como indivíduos, constituem religiões para servir de seguranças, para servir de padrões para a conduta convencional; devido ao medo da perda, o medo de perder algo que querem, aceitam guias ou ideias como os que as religiões oferecem.

Ora tendo constituído os vossos ideais religiosos, que são na verdade as vossas seguranças, têm que ter modos de conduta, práticas, cerimoniais e crenças específicas, para alcançar esses ideais. Ao tentar levá-los a cabo, aí surge a divisão no pensamento religioso, resultando em cisões, seitas, credos. Vocês têm as vossas crenças, e outros têm as deles; vocês mantêm-se fiéis à vossa forma específica de religião e outros à deles; vocês são Cristãos, outros são Muçulmanos, e outros ainda Hindus. Têm estas dissenções e distinções religiosas, mas contudo falam de amor fraternal, tolerância e unidade – não que tenha que haver uniformidade de pensamento e ideias. A tolerância de que falam é apenas uma invenção engenhosa da mente; esta tolerância apenas indica o desejo de se apegarem às vossas próprias idiossincrasias, às vossas próprias ideias limitadas e preconceitos, e de permitirem que os outros procurem as deles. Nesta tolerância não há diversidade inteligente, mas somente uma espécie de indiferença superior. Existe absoluta falsidade nesta tolerância. Dizem, “Vocês continuem no vosso caminho, e eu continuarei no meu; mas sejamos tolerantes, fraternais.” Quando houver verdadeira fraternidade, amizade, quando houver amor no vosso coração, então não falarão de tolerância. Somente quando se sentem superiores na vossa certeza, na vossa posição, no vosso conhecimento, somente então falam de tolerância. São tolerantes somente quando há distinção. Com o cessar da distinção, não se falará de tolerância. Nessa altura não falarão de fraternidade, porque então nos vossos corações serão irmãos.

Portanto vocês, como indivíduos, constituem várias religiões que actuam como a vossa segurança. Nenhum professor constituiu estas religiões organizadas, exploradoras. Vocês próprios, a partir da vossa insegurança, a partir da vossa confusão, a partir da vossa falta de compreensão, criaram as religiões como vossos guias. Depois, após terem constituído religiões, procuram gurus, professores; procuram Mestres que os ajudem.

Não pensem que estou a tentar atacar a vossa crença favorita; estou simplesmente a constatar factos, não para que os aceitem, mas para que os examinem, os critiquem e os verifiquem.

Vocês têm o vosso Mestre, e outros têm o seu guia particular; vocês têm o vosso salvador o outros têm o deles. De tal divisão de pensamento e crença cresce a contradição e o conflito dos méritos dos vários sistemas. Estas disputas colocam o homem contra o homem; mas uma vez que intelectualizámos a vida, já não lutamos abertamente: tentamos ser tolerantes. Por favor pensem no que estou a dizer. Não aceitem ou rejeitem as minhas palavras simplesmente. Para examinar imparcialmente, criticamente, têm que pôr de lado os vossos preconceitos e idiossincrasias, e abordar a questão abertamente.

Em todo o mundo, as religiões mantiveram os homens separados. Individualmente cada um procura a sua própria pequena segurança e está interessado no seu próprio progresso; individualmente cada um deseja crescer, expandir-se, ser bem sucedido, alcançar, e portanto aceita qualquer professor que se ofereça para o ajudar na direcção do seu avanço e crescimento. Como resultado desta atitude de aceitação, a crítica e o verdadeiro questionamento cessaram. Implantou-se a estagnação. Se bem que se movam ao longo de um estreito sulco de pensamento e de vida, já não há pensamento verdadeiro, já não há o viver completo, mas somente uma reacção defensiva. Enquanto a religião mantiver os homens separados não pode haver fraternidade, assim como não pode haver fraternidade enquanto houver nacionalidade, que sempre terá que causar conflito entre os homens.

A religião com as suas crenças, as suas disciplinas, os seus engodos, as suas esperanças, os seus castigos, força-os em direcção ao comportamento correcto, à fraternidade, ao amor. E uma vez que são forçados, ou obedecem à autoridade externa que ela estabelece, ou – que é a mesma coisa – começam a desenvolver a vossa própria autoridade interna como uma reacção contra a externa, e seguem-na. Onde existe crença, onde existe a persecução de um ideal, não pode existir um viver completo. A crença indica a incapacidade de compreender o presente.

Agora não se voltem para o oposto e não digam, “Não devemos ter crenças? Não devemos ter quaisquer ideais?” Estou simplesmente a mostrar-lhes a causa e a natureza da crença. Porque não podem compreender o movimento imediato da vida, porque não podem colher o significado da sua veloz fluidez, pensam que a crença é necessária. Na vossa dependência na tradição, nos ideais, nas crenças ou nos Mestres, não estão a viver no presente, que é eterno.

Muitos de vocês podem pensar que o que estou a dizer é muito negativo. Não o é, porque quando realmente virem o falso, então compreendem o verdadeiro. Tudo o que estou a tentar fazer é mostrar-lhes o falso, para que possam encontrar o verdadeiro. Isto não é uma negação. Pelo contrário, este despertar da inteligência criativa é a única ajuda positiva que lhes posso dar. Mas podem pensar que isto não é positivo; provavelmente só me chamariam positivo se lhes desse uma disciplina, um curso de acção, um novo sistema de pensamento. Mas não podemos avançar mais nisto hoje. Se colocarem questões sobre isto amanhã ou nos próximos dias, tentarei respondê-las. Os indivíduos criaram a sociedade agrupando-se com objectivos de obtenção, mas isto não ocasiona a verdadeira unidade. Esta sociedade torna-se a sua prisão, o seu molde, e contudo cada indivíduo que ser livre para crescer, para ser bem sucedido. Assim cada um torna-se um explorador da sociedade e é, por sua vez, explorado pela sociedade. A sociedade torna-se o cume dos seus desejos, e o governo o instrumento para levar a cabo esse desejo conferindo honras aos que têm o maior poder de possuir, de ganhar. A mesma atitude estúpida existe na religião: a autoridade religiosa considera o homem que se conformou inteiramente aos seus dogmas e crenças uma pessoa verdadeiramente espiritual. Confere honra ao homem que possui a virtude. Assim, no nosso desejo de possuir – e novamente não estou a falar em termos de opostos, mas antes, a examinar precisamente a coisa que causa o desejo de posse – na nossa procura de posse, criamos uma sociedade da qual inconscientemente nos tornamos escravos. Tornamo-nos peças de engrenagem nessa máquina social, aceitando todos os seus valores, as suas tradições, as suas esperanças e anseios, e as suas ideias estabelecidas, porque nós criámos a sociedade, e ela ajuda-nos a obter o que queremos. Assim a ordem estabelecida seja do governo ou da religião põe fim ao questionamento, à procura, à dúvida. Por isso, quanto mais nos unirmos nas nossas várias posses, mais tendência temos para nos tornarmos nacionalistas.

Afinal, o que é uma nação? É um grupo de indivíduos que vivem em conjunto com o objectivo da conveniência económica e auto-protecção, e explorando unidades similares. Não sou economista, mas este é um facto óbvio. Deste espírito de aquisitividade surge a ideia de “a minha família”, “a minha casa”, “o meu país”. Enquanto existir esta possessividade não pode existir verdadeira fraternidade ou verdadeiro internacionalismo. As vossas fronteiras, as vossas alfândegas, as vossas barreiras alfandegárias, as vossas tradições, as vossas crenças, as vossas religiões estão a separar o homem do homem. O que se criou com esta mentalidade de lucro, de separatividade, protecção, segurança? Nacionalidades; e onde existe nacionalismo tem que haver guerra. É a função das nações prepararem-se para as guerras, caso contrário não podem ser verdadeiras nações.

É isso o que está a acontecer em todo o mundo, e encontramo-nos à beira de outra guerra. Cada jornal encoraja o nacionalismo e o espírito de separatividade. O que tem sido dito em quase todos os países, na América, na Inglaterra, na Alemanha, na Itália? “Primeiro nós e a nossa segurança individual, e depois consideraremos o mundo.” Parecemos não compreender que estamos todos no mesmo barco. As pessoas já não podem ser separadas como o eram há alguns séculos atrás. Não devíamos pensar em termos de separação, mas insistimos em pensar nacionalisticamente ou com consciência de classe porque continuamos ligados às nossas posses, às nossas crenças. O nacionalismo é uma doença; não pode ocasionar a unidade do mundo ou a unidade humana. Não podemos alcançar a saúde através da doença; temos que nos libertar primeiramente da doença. A educação, a sociedade, a religião, ajudam a manter as nações separadas, porque cada uma individualmente procura crescer, lucrar, explorar.

Ora deste desejo de crescer, lucrar, explorar, criamos inumeráveis crenças – crenças relativas à vida após a morte, à reencarnação, à imortalidade – e encontramos pessoas que nos exploram através das nossas crenças. Por favor compreendam que ao dizer isto não me refiro a qualquer líder ou professor em particular; não estou a atacar nenhum dos vossos líderes. Atacar alguém é uma pura perda de tempo. Não estou interessado em atacar nenhum líder específico, tenho algo mais importante a fazer na vida. Quero agir como um espelho, explicar-lhes as perversões e desilusões que existem na sociedade, na religião.

Toda a nossa estrutura social e intelectual está baseada na ideia de lucro, de consecução; e quando a mente e o coração estão dominados pela ideia de ganho, não pode existir o verdadeiro viver, não pode existir o fluxo livre da vida. Não é assim? Se estão constantemente a contar com o futuro, com uma consecução, com uma obtenção, com uma esperança, como podem viver completamente no presente? Como podem agir inteligentemente como um ser humano? Como podem pensar ou sentir na plenitude do presente quando estão sempre a vigiar cuidadosamente o futuro distante? Através da nossa religião, através da nossa educação, somos convertidos em nada, e tendo consciência desse nada, queremos ganhar, ser bem sucedidos. Assim procuramos constantemente professores, gurus, sistemas.

Se realmente compreendem isto, agirão; não o discutirão apenas intelectualmente.

Ao procurarem o ganho perdem de vista o presente. Na vossa procura de lucro, na vossa confiança no passado, não compreendem totalmente a experiência imediata. Essa experiência deixa uma cicatriz, uma memória que é a incompletude dessa experiência, e dessa incompletude crescente desenvolve-se a consciência do “eu”, o ego. As vossas divisões do ego são apenas o refinamento superficial do egoísmo na sua procura de ganho. Intrinsecamente, nessa incompletude da experiência, nessa memória, tem o ego as suas raízes. Por muito que possa crescer, expandir-se, sempre preservará o centro do egoísmo. Assim, quando procuram lucro, sucesso, cada experiência aumenta a auto-consciência. Mas discutiremos isto noutra altura. Nesta palestra quero apresentar o máximo que possa do meu pensamento, para que durante as próximas palestras eu tenha tempo para responder às questões que possam colocar.

Quando a mente é apanhada no passado ou no futuro, não pode compreender o significado da experiência presente. Isto é óbvio. Quando estão a prestar atenção ao ganho, não podem compreender o presente. E uma vez que não compreendem o presente, que é experiência, ela deixa a sua cicatriz, a sua incompletude na mente. Não estão libertos dessa experiência. Esta falta de liberdade, de plenitude, cria memória, e o aumento dessa memória não é senão auto-consciência, o ego. Assim quando dizem, “Deixa-me contar com a experiência para me dar liberdade”, o que realmente estão a fazer é a aumentar, a intensificar, a expandir essa auto-consciência, esse ego; porque estão a contar com o ganho, a acumulação, como o meio para obter felicidade, como o meio de compreender a verdade.

Depois de terem estabelecido na vossa mente a consciência do “eu”, a vossa mente alimenta essa consciência, e daí surge a questão sobre se viverão ou não após a morte, se poderão ter esperança na reencarnação. Querem saber categoricamente se a reencarnação é um facto. Por outras palavras, utilizam a ideia da reencarnação como um meio de protelação, retirando daí conforto. Dizem, “Através do progresso obterei compreensão; o que não compreendi hoje compreenderei amanhã. Por isso deixa-me ter a garantia de que a reencarnação é verdade.”

Assim agarram-se a esta ideia de progresso, esta ideia de obter cada vez mais até que cheguem à perfeição. É a isso que chamam progresso, adquirir cada vez mais, acumular cada vez mais. Mas para mim, perfeição é realização, não esta acumulação progressiva. Usam a palavra progresso para significar acumulação, obtenção, consecução; é essa a vossa ideia fundamental de progresso. Mas a perfeição não reside no progresso; ela é realização. A perfeição não é compreendida através da multiplicação de experiências, mas é plenitude na experiência, plenitude na própria acção. O progresso separado da plenitude, conduz à total superficialidade.

Um sistema de fuga assim é dominante no mundo de hoje. A vossa teoria da reencarnação torna o homem cada vez mais superficial, em que ele diz, “Como não me posso realizar hoje, fá-lo-ei no futuro.” Se não se podem realizar nesta vida, retiram conforto da ideia de que há sempre uma próxima vida. Daqui surge o questionamento sobre a vida após a morte, e a ideia de que o homem que adquiriu mais conhecimento, que não é sabedoria, alcançará a perfeição. Mas a sabedoria não é o resultado da acumulação; a sabedoria não é posse; a sabedoria é espontânea, imediata.

Enquanto a mente foge do vazio através da obtenção, esse vazio aumenta, e não têm um dia, um momento, em que possam dizer, “Eu vivi.” As vossas acções são sempre incompletas, não realizadas, e por esse motivo a vossa procura de continuação. Com este desejo, o que aconteceu? Vocês tornaram-se cada vez mais vazios, cada vez mais superficiais, irreflectidos, sem sentido crítico. Aceitam o homem que lhes oferece conforto, certeza, e vocês, como indivíduos, criaram-no como vosso explorador. Tornam-se seus escravos, escravos do seu sistema, dos seus ideais. Desta atitude de aceitação não há realização, mas protelação. Por isso a necessidade da ideia da vossa continuidade, a crença na reencarnação, e daí surge a ideia de progresso, acumulação. Em seja o que for que fizerem, não há harmonia, não há significado, porque estão constantemente a pensar em termos de obtenção. Pensam na perfeição como uma finalidade, não como realização.

Ora, conforme disse, a perfeição reside na compreensão, em compreender completamente o significado de uma experiência; e essa compreensão é realização, a qual é imortalidade. Portanto têm que se tornar plenamente conscientes da vossa acção no presente. O aumento da auto-consciência chega através da superficialidade da acção e através da exploração incessante, começando com as famílias, maridos, esposas, crianças, e alargando-se à sociedade, ideais, religião; porque todos eles estão baseados nesta ideia de obtenção. O que realmente estão a procurar é aquisitividade, ainda que possam estar inconscientes dela, e da vossa exploração. Quero esclarecer que as vossas religiões, as vossas crenças, as vossas tradições, a vossa auto-disciplina estão baseadas na ideia de ganho. São apenas engodos para o comportamento correcto, e delas surge o explorador e o explorado. Se estão à procura de aquisitividade, procurem-na conscientemente – não hipocritamente. Não digam que estão à procura da verdade, porque não se chega à verdade desta maneira.

Ora esta ideia de crescer cada vez mais é para mim falsa, porque aquilo que cresce não é eterno. Foi já alguma vez demonstrado que quanto mais tiverem, mais compreendem? Em teoria poderá ser assim, mas na realidade não é assim. Um homem aumenta a sua propriedade e cerca-a; um outro aumenta o seu conhecimento e é limitado por ele. Qual é a diferença? Este processo de crescimento acumulativo é néscio, falso desde o princípio, porque aquilo que é susceptível de crescimento não é eterno. É uma ilusão, uma falsidade que nada tem em si de realidade. Mas se andarem atrás desta ideia de crescimento acumulativo, andem atrás dela com toda a vossa mente e com todo o vosso coração. Então descobrirão como é superficial, como é inútil, como é artificial. E quando perceberem que é falsa, então saberão a verdade. Nada precisa de a substituir. Então já não procurarão a verdade para substituir pelo falso; porque na vossa percepção directa já não existe o falso. E nessa compreensão há o eterno. Então há felicidade, inteligência criativa. Então viverão naturalmente, completamente, como a flor, e nisso há imortalidade.

A Arte de Escutar

Adyar - 1ª palestra 29 de dezembro, 1933.

Jiddu Krishnamurti. A Arte de Escutar. Filosofia. Textos de J.Krishnamurti em Português.

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