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A Arte de Escutar

Adyar - 3ª palestra 31 de dezembro, 1933.

Se se puder encontrar uma absoluta garantia de segurança, então não se tem medo de nada. Se se puder ter a certeza de tudo, então o medo cessa totalmente, seja o medo do presente ou do futuro. Por isso estamos sempre à procura de segurança, consciente ou inconscientemente, segurança essa que eventualmente se torna a nossa posse exclusiva. Ora existe a segurança física que, no presente estado da civilização, um homem pode acumular através do seu engenho, da sua habilidade, através da exploração. Fisicamente ele pode assim tornar-se seguro, enquanto que emocionalmente, para segurança, ele se volta para o pretenso amor, que é para a maior parte, possessividade; volta-se para as distinções emocionais egoístas da família, dos amigos, e da nacionalidade. Depois há a procura constante de segurança emocional em ideias, em crenças, na busca da virtude, sistemas, certezas, e o pretenso conhecimento.

Deste modo entrincheiramo-nos continuamente; através da possessividade construímos à nossa volta seguranças, confortos, e tentamos sentir-nos seguros, protegidos, certos. É isto o que estamos continuamente a fazer. Mas embora nos entrincheiremos por trás das seguranças do conhecimento, da virtude, do amor, da posse, embora edifiquemos muitas certezas, estamos a construir sobre areia, porque as ondas da vida estão constantemente a bater contra os seus alicerces, deixando à mostra as estruturas que nós tão cuidadosa e diligentemente construímos. Chegam experiências, uma após outra, que destroem todo o conhecimento anterior, todas as certezas anteriores, e todas as nossas seguranças são arrastadas, disseminadas como palha perante o vento. Assim, embora possamos pensar que estamos seguros, vivemos no medo contínuo da morte, no medo da mudança e da perda, no medo da revolução, no medo da incerteza torturante. Estamos constantemente conscientes da transitoriedade do pensamento. Construímos inumeráveis muros por trás dos quais procuramos segurança e conforto, mas o medo está ainda a torturar-nos nos nossos corações e nas nossas mentes. Assim procuramos continuamente a substituição, e essa substituição torna-se a nossa meta, o nosso objectivo. Dizemos, “Esta crença provou não ser de qualquer valor, portanto deixa-me virar para outro conjunto de crenças, outro conjunto de ideias, outra filosofia.” A nossa dúvida termina meramente na substituição, não no questionamento da crença em si. Não é a dúvida que questiona, mas o desejo de seguranças. Por isso a vossa pretensa busca da verdade se torna apenas numa busca de mais seguranças permanentes, e aceitam como professor, como guia, qualquer pessoa que se ofereça para lhes dar segurança, certeza, conforto absolutos.

É assim que é com a maioria das pessoas. Queremos e procuramos. Tentamos analisar os substitutos que os outros sugerem para tomarem o lugar das seguranças que conhecemos e que estão a ser constantemente desgastadas, corroídas, pela experiência da vida. Mas não nos podemos livrar do medo pela substituição, pela remoção de um conjunto de crenças substituindo-o por outro. Só quando descobrimos o verdadeiro valor das crenças a que nos agarramos, o significado persistente dos nossos instintos de posse, do nosso conhecimento, das seguranças que edificamos, somente nessa compreensão podemos pôr fim ao medo. A compreensão não chega pela procura de substitutos, mas pelo questionamento, entrando verdadeiramente em conflito com as tradições, duvidando das ideias estabelecidas da sociedade, da religião, da política. Afinal, a causa do medo é o ego e a consciência desse ego, que é criado pela falta de compreensão. Devido a esta falta de compreensão procuramos seguranças, desse modo fortalecendo essa limitada auto-consciência.

Ora enquanto o ego existir, enquanto houver a consciência do “meu”, tem que haver medo; e este ego existirá enquanto desejarmos substitutos, enquanto não compreendermos as coisas à nossa volta, as coisas que nós estabelecemos, os próprios monumentos da tradição, dos hábitos, das ideias, das crenças em que nos refugiamos. E só podemos compreender estas tradições e crenças, descobrir o seu verdadeiro significado, quando entrarmos em conflito com elas. Não podemos compreendê-las teoricamente, intelectualmente, mas apenas na plenitude do pensamento e da emoção, que é a acção.

Para mim, o ego representa a falta de percepção que cria o tempo. Quando compreendem um facto completamente, quando compreendem as experiências da vida integralmente, incondicionalmente, o tempo cessa. Mas não podem compreender a experiência completamente se estiverem constantemente à procura de certeza, de conforto, se a vossa mente estiver entrincheirada na segurança. Para compreender uma experiência em todo o seu significado, têm que questionar, têm que duvidar das seguranças, das tradições, dos hábitos que edificaram porque eles impedem a plenitude da compreensão. Desse questionamento, desse conflito, se esse conflito for real, desponta a compreensão; e nessa compreensão, a auto-consciência, a consciência limitada, desaparece.

Têm que descobrir o que estão a procurar, segurança ou compreensão. Se estão à procura de segurança, encontrá-la-ão na filosofia, nas religiões, nas tradições, na autoridade; mas se desejam compreender a vida, na qual não há segurança, conforto, então há liberdade duradoura. E só podem descobrir o que procuram estando conscientes na acção; não podem descobrir apenas questionando a acção. Quando questionam e analisam a acção, põe um fim à acção. Mas se estiverem conscientes, se forem intensos na vossa acção, se puserem nela toda a vossa mente e todo o vosso coração, então essa acção revelará se estão por esse meio a procurar conforto, segurança, ou essa infinita compreensão que é o eterno movimento da vida.

Pergunta: Na sua Autobiografia a Dra. Besant disse que tinha passado da tormenta à paz pela primeira vez na sua vida quando conheceu o seu grande Mestre. A sua magnífica vida daí para a frente teve a sua força motriz na sua ilimitada e interminável devoção ao seu Mestre, expressa através da alegria de o servir. O senhor mesmo, nas suas poéticas palavras, declarou a sua inexprimível alegria na união como o Amado (Beloved) e na visão da sua face para onde quer que se voltasse. Não poderia a influência de um Mestre, tal como foi evidente na notável vida da Dra. Besant e na sua, ser igualmente significativa em outras vidas?

Krishnamurti: Está a perguntar-me, por outras palavras, se os Mestres são necessários, se eu acredito em Mestres, se a sua influência é benéfica, e se eles existem. É essa toda a questão, não é? Muito bem, senhores. Ora, acreditem ou não em Mestres (e alguns de vocês acreditam neles), por favor não fechem as vossas mentes ao que vou dizer. Sejam abertos, críticos. Vamos examinar a questão exaustivamente, em vez de discutir se vocês ou eu acreditamos em Mestres.

Em primeiro lugar, para compreender a verdade têm que permanecer sozinhos, inteiramente e integralmente sozinhos. Nenhum Mestre, nenhum guru, nenhum sistema, nenhuma auto-disciplina jamais levantará para vocês o véu que oculta a sabedoria. A sabedoria é a compreensão dos valores duradouros e o viver desses valores. Ninguém os pode conduzir à sabedoria. Isso é óbvio, não é? Nem precisamos de o discutir. Ninguém os pode forçar, nenhum sistema os pode instar a libertarem-se do instinto de possessividade até que vocês próprios voluntariamente compreendam, e nessa compreensão há sabedoria. Nenhum Mestre, nenhum guru, nenhum professor, nenhum sistema os pode forçar a essa compreensão. Somente o sofrimento que vocês próprios experimentam pode fazê-los ver o absurdo da possa da qual surge o conflito; e desse sofrimento chega a compreensão. Mas quando procuram uma fuga desse sofrimento, quando procuram refúgio, conforto, então têm que ter Mestres, têm que ter filosofia e crença; então voltam-se para os tais refúgios de segurança como a religião.

Assim com esta compreensão vou responder à vossa questão. Esqueçamos de momento o que a Dra. Besant disse e fez, ou o que eu disse e fiz. Deixemos isso de lado. Não tragam a Dra. Besant para a discussão; se o fizerem, reagirão emocionalmente, aqueles de vocês que têm simpatia pelas suas ideias, e aqueles de vocês que a não têm. Dirão que ela me criou, que sou desleal, e palavras semelhantes que utilizam para mostrar a vossa desaprovação. Coloquemos de lado tudo isto de momento e olhemos para a questão com toda a franqueza e simplicidade.

Em primeiro lugar, querem saber se os Mestres existem. Eu digo que quer eles existam ou não, isso é de muito pouca importância. Agora por favor não pensem que estou a atacar as vossas crenças. Compreendo que estou a falar para membros da Sociedade Teosófica, e que aqui sou o vosso convidado. Mas fizeram-se uma pergunta, e estou simplesmente a respondê-la. Assim vamos considerar o porquê de quererem saber se os Mestres existem ou não. “Porque”, dizem para vocês próprios, “os Mestres podem guiar-nos através da confusão tal como um sinal luminoso do farol guia o marinheiro.” Mas o facto de dizerem isso mostra que estão apenas à procura de um porto de abrigo, que têm medo do mar alto da vida.

Ou, mais uma vez, podem fazer a pergunta porque querem fortalecer a vossa crença; querem fundamentação, corroboração da vossa crença. Senhores, uma coisa que é um brinquedo, embora tornado belo pela corroboração de milhares de pessoas, permanece um brinquedo. Vocês dizem-me, “Os nossos professores deram-nos fé, mas agora vem lançar a dúvida nessa fé. Por isso queremos saber se os Mestres existem ou não. Por favor fortaleça-nos na nossa crença de que eles existem; diga-nos se o senhor mesmo foi ou não guiado por eles.”

Se apenas desejam ser fortalecidos na vossa fé, então eu não posso responder a essa pergunta porque não me limito com a fé. A fé é mera autoridade, cegueira, esperança, anseio; é um meio de exploração, seja aqui ou na Igreja Católica Romana, ou em qualquer outra religião. É um meio de forçar o homem à acção, à acção correcta ou incorrecta. O fortalecimento da fé não produz compreensão: mais exactamente, o próprio duvidar dessa fé e a descoberta do seu significado trazem compreensão. Que diferença faria se pudessem ver os Mestres fisicamente todos os dias? Todavia continuariam a agarrar-se aos vossos preconceitos, às vossas tradições, aos vossos hábitos; seriam todavia escravos das vossas crueldades, das vossas crenças fanáticas, tacanhas, da vossa falta de amor, do vosso orgulho na nacionalidade, mas estes vocês conservariam secretamente fechados a sete chaves.

Depois da primeira questão surge a segunda: “Duvida dos mensageiros dos Mestres?” Eu duvido de tudo, porque só através da dúvida se pode descobrir, não através de colocarmos a nossa fé em algo. Mas vocês evitaram cuidadosamente, perseverantemente a dúvida; desfizeram-se dela como de uma grilheta.

Então de novo dirão, “Se eu entrar em contacto com os Mestres, posso descobrir o seu plano para a humanidade.” Referem-se a um plano social, um plano para o bem-estar físico do homem? Ou referem-se ao bem-estar espiritual do homem? Se responderem, “Ambos”, então eu digo que o homem não pode alcançar o bem-estar espiritual através da actuação de outra pessoa. Isso está inteiramente nas vossas mãos. Ninguém pode planear isso para outro. Cada homem tem que descobrir por si mesmo, tem que compreender; há plenitude na realização, não no progresso. Mas se disserem, “Procuramos um plano para o bem-estar físico do homem”, então têm que estudar economia e sociologia. Então porque não fazer de Harold Laski o vosso mestre, ou de Keynes, ou de Marx ou de Lenin? Cada um destes oferece um plano para o bem-estar do homem. Mas vocês não querem isso. O que vocês querem, quando procuram um Mestre, é abrigo, um refúgio de segurança; querem proteger-se do sofrimento, esconder-se da confusão e do conflito.

Afirmo que não existe tal coisa como um refúgio, como conforto. Podem apenas fazer um refúgio artificial, criado intelectualmente. Porque o fizeram durante gerações, perderam a vossa inteligência criativa. Tornaram-se limitados pela autoridade, estropiados com crenças, com falsas tradições e hábitos. Os vossos corações estão secos, duros. Eis porque apoiam todas as formas de sistemas de pensamento cruéis, que conduzem à exploração. Eis porque encorajam o nacionalismo, porque lhes falta fraternidade. Falam de fraternidade, mas as vossas palavras são desprovidas de sentido enquanto os vossos corações estiverem limitados pela distinção de classes. Vocês que acreditam tão profundamente em todas estas ideias, o que é que vocês têm, o que são vocês? Conchas vazias retumbando palavras, palavras, palavras. Perderam todo o sentido de sentimento pela beleza, pelo amor; apoiam instituições falsas, ideias falsas. Aqueles de vocês que acreditam nestes Mestres, no seu plano, nos seus mensageiros, o que são vocês? Na vossa exploração, no vosso nacionalismo, nos vossos maus-tratos das mulheres e das crianças, na vossa aquisitividade, são tão cruéis como o homem que não acredita em Mestres, no seu plano, nos seus mensageiros. Apenas estabeleceram novas instituições para as antigas, novas crenças para as antigas; o vosso nacionalismo é tão cruel como o antigo, só que vocês têm argumentos mais subtis para as vossas crueldades e exploração.

Enquanto a mente estiver aprisionada na crença, não há compreensão, não há liberdade. Assim, para mim, se os Mestres existem ou não é totalmente irrelevante à acção, à realização, com a que nos deveríamos preocupar. Mesmo que a sua existência seja um facto, não tem qualquer importância; porque para compreender têm que ser independentes, têm que estar entregues a si próprios, completamente nus, despojados de toda a segurança. Foi isto o que eu disse na minha palestra introdutória. Têm que descobrir se estão à procura de segurança, conforto, ou se estão à procura de compreensão. Se realmente examinarem os vossos próprios corações, a maior parte de vocês descobrirá que procura segurança, conforto, locais de protecção, e que nessa procura se munem de filosofias, gurus, sistemas de auto-disciplina; estão assim a frustrar, a restringir continuamente o pensamento. Nos vossos esforços para fugir do medo, entrincheiram-se nas crenças, e aumentando desse modo a vossa própria auto-consciência, o vosso próprio egoísmo; apenas se tornaram mais subtis, mais astutos.

Sei que disse todas estas coisas anteriormente duma forma diferente, mas aparentemente as minhas palavras não tiveram qualquer efeito. Ou querem compreender o que digo, ou estão satisfeitos com as vossas próprias crenças e sofrimentos. Se estão satisfeitos com eles, porque me convidaram para vir aqui falar? Porque me ouvem? Não, fundamentalmente não estão satisfeitos. Podem preconizar que estão satisfeitos; podem associar-se a instituições, efectuar novas cerimónias, mas interiormente sentem uma incerteza, uma dor interminável que nunca se atrevem a enfrentar. Em vez disso, procuram substitutos; querem saber se lhes posso dar novos refúgios, e é por isso que me fizeram esta pergunta. Querem que eu os apoie nessas crenças das quais não têm a certeza. Querem estabilidade interior, mas eu digo-lhes que não existe tal estabilidade. Querem que eu lhes dê certezas, garantias. Eu digo-lhes que têm tais certezas, tais garantias às centenas nos vossos livros, nas vossas filosofias, mas elas não têm qualquer valor para vocês; são pó e cinzas porque no vosso próprio íntimo não há compreensão. Só podem ter compreensão, garanto-lhes, quando começarem a duvidar, quando começarem a questionar precisamente os refúgios em que se confortam, em que se refugiam.

Mas isto significa que têm que entrar em conflito com as tradições e com os hábitos que estabeleceram. Talvez tenham posto de parte as velhas tradições, os velhos gurus, as velhas cerimónias, e tenham aceite novos. Qual é a diferença? As novas tradições, os novos gurus, as novas cerimónias são exactamente o mesmo que os velhos, excepto que são mais exclusivos. Pelo questionamento constante descobrirão o real, o valor inerente das tradições, dos gurus, das cerimónias. Não lhes estou a pedir que abandonem as cerimónias, que deixem de seguir os Mestres. Esse é um assunto de menor importância e pouco inteligente; se efectuam cerimónias ou contam com os Mestres para vossa orientação não é importante. Mas enquanto houver falta de compreensão há medo, há sofrimento, e a mera tentativa de encobrir esse medo, esse sofrimento, através de cerimónias, através da orientação dos Mestres, não os libertará.

Já me tinha feito esta pergunta antes; fizeram-me a mesma pergunta no ano passado. E de cada vez que a fazem, fazem-na porque querem refugiar-se por trás da minha resposta; querem sentir-se protegidos, pôr um fim à dúvida. Ora eu posso contradizer a vossa crença; posso dizer que não existem Mestres. Depois chega outro para lhes dizer que os Mestres existem. Eu digo, duvidem de ambas as respostas, questionem ambas: não se limitem a aceitá-las. Vocês não são crianças, macacos a imitar a acção de alguém; são seres humanos, não para serem condicionados pelo medo. Pressupõe-se que sejam criativamente inteligentes; mas como podem ser criativamente inteligentes se seguem um professor, uma filosofia, uma prática, um sistema de auto-disciplina? A vida é rica somente para o homem que se encontra no movimento constante do pensamento, para o homem cujas acções são harmoniosas. Nele há afecto, há consideração. Esse cujas acções são harmoniosas usará um sistema inteligente para curar as feridas supurantes do mundo.

Sei que o que estou a dizer hoje já o disse inúmeras vezes; disse-o muitas vezes. Mas vocês não sentem estas coisas porque lhes deram explicações satisfatórias, e nestas explicações, nestas crenças, tomam refúgio, conforto. Só estão preocupados convosco próprios, com a vossa própria segurança, com o vosso próprio conforto, como os homens que lutam por títulos governamentais. Fazem o mesmo de maneiras diferentes, e as vossas palavras de fraternidade, de verdade, nada significam; são apenas conversa oca.

Pergunta: O único desgosto da Dra. Besant diz-se ter sido o facto de que não correspondeu às suas expectativas como o Professor do Mundo. Alguns de nós compartilhamos francamente desse desgosto e desse sentido de desapontamento, e sentimos que de forma alguma é sem qualquer justificação. Tem alguma coisa a dizer?

Krishnamurti: Nada, senhores. (Riso) Quando digo “Nada”, quero dizer nada que atenue o vosso desapontamento ou o desapontamento da Dra. Besant – se é que ela estava desapontada, porque muitas vezes me expressou o contrário. Não estou aqui para me justificar; não estou interessado em justificar-me. A questão é, porque estão desapontados, se é que estão? Tinham pensado colocar-me numa certa gaiola, e uma vez que eu não sirvo para essa gaiola, naturalmente ficaram desapontados. Tinham uma ideia preconcebida daquilo que eu deveria fazer, do que deveria dizer, do que deveria pensar.

Eu afirmo que existe a imortalidade, um eterno devir. A questão não é que eu o saiba, mas sim que existe. Tenham cuidado com o homem que diz; “Eu sei.” A vida do eterno devir existe, mas para a compreenderem, a vossa mente tem que estar liberta de todas as ideias preconcebidas sobre o que é. Preconceberam ideias de Deus, da imortalidade, da vida. “Isto está escrito em livros”, dizem vocês, ou, “Alguém me disse isto.” Construíram assim uma imagem da verdade, assim imaginaram Deus e a imortalidade. Querem agarrar-se a essa imagem, a essa impressão, e ficam desapontados com quem quer que seja cuja ideia difere da vossa, com quem quer que seja cujas ideias não se adaptem às vossas. Por outras palavras, se essa pessoa não se tornar a vossa ferramenta, vocês ficam desapontados com ela. Se essa pessoa não os explorar – e vocês criam o explorador com o vosso desejo de segurança – então ficam desapontados com ela. O vosso desapontamento não se baseia no pensamento, não se baseia na inteligência, não se baseia na afeição profunda, mas sim numa qualquer imagem de vosso própria feitura, por mais falsa que possa ser.

Encontrarão pessoas que lhes dirão que as desapontei, e criarão um corpo de opinião sustentando que eu falhei. Mas dentro de cem anos não creio que vá importar muito se estão desapontados ou não. A verdade de que falo, permanecerá – não as vossas fantasias ou os vossos desapontamentos.

Pergunta: Considera um pecado que um homem ou uma mulher se gozem de relações sexuais ilegítimas? Um jovem quer livrar-se de tal felicidade ilegítima que ele considera errada. Tenta continuamente controlar a sua mente mas não consegue. Poderia mostrar-lhe uma maneira prática de ser feliz?

Krishnamurti: Em coisas assim não há “maneiras práticas.” Mas consideremos a questão; tentemos compreendê-la, embora não do ponto de vista de um determinado acto ser pecado ou não ser pecado. Para mim não existe tal coisa como o pecado.

Porque é que o sexo se tornou um problema na nossa vida? Porque há tantas distorções, perversões, inibições, repressões? Não será porque estamos esfomeados mental e emocionalmente, porque estamos incompletos em nós próprios, porque apenas nos tornamos máquinas imitativas, e a única expressão criativa deixada para nós, a única coisa na qual podemos encontrar felicidade, é a coisa a que chamamos sexo? Como indivíduos, deixamos de o ser mental e emocionalmente. Somos apenas máquinas na sociedade, na política, na religião. Nós como indivíduos fomos absolutamente, implacavelmente destruídos através do medo, através da imitação, através da autoridade. Não libertámos a nossa inteligência criativa através de canais sociais, políticos e religiosos. Por isso a única expressão criativa que nos foi deixada como indivíduos é o sexo, e a isso atribuímos naturalmente uma tremenda importância, nisso colocamos uma enorme ênfase. Eis porque o sexo se tornou um problema, não é?

Se puderem libertar o pensamento criativo, a emoção criativa, então o sexo deixará de ser um problema. Para libertar completamente, integralmente, essa inteligência criativa, têm que questionar o próprio hábito do pensamento, têm de questionar a própria tradição em que vivem, essas mesmas crenças que se tornaram automáticas, espontâneas, instintivas. Através do questionamento entram em conflito, e esse conflito e a sua compreensão despertarão a inteligência criativa; nesse questionamento gradualmente libertarão o pensamento criativo da imitação, da autoridade, do medo.

Esse é um lado da questão. Também há um outro lado para esta questão, que diz respeito à comida e ao exercício, e ao amor ao trabalho que fazem. Perderam o amor ao vosso trabalho. Tornaram-se empregados de escritório, escravos de um sistema, trabalhando por quinze rupias ou por dez mil rupias, não por amor ao que fazem.

Com respeito à relação sexual ilegítima, consideremos primeiro o que querem dizer com casamento. Na maioria dos casos o casamento é apenas a santificação da possessividade, pela religião e pela lei. Suponham que amam uma mulher; querem viver com ela, possuí-la. Ora a sociedade tem inúmeras leis que os ajudam a possuir, e várias cerimónias que santificam essa possessividade. Um acto que teriam considerado pecaminoso antes do casamento, consideram-no legal após essa cerimónia. Isto é, antes da lei legalizar e da religião santificar a vossa possessividade, consideram o acto da relação sexual ilegal, pecaminoso. Onde há amor, amor verdadeiro, não há qualquer problema de pecado, de legalidade ou ilegalidade. Mas a menos que realmente pensem profundamente sobre isto, a menos que façam um esforço real para não interpretar mal o que eu disse, isso levá-lo-á a todas as espécies de confusão. Temos medo de muitas coisas. Para mim a cessação dos problemas do sexo não reside na mera legislação, mas em libertar essa inteligência criativa, em ser completos na acção, não separando mente e coração. O problema só desaparece vivendo completamente, integralmente.

Conforme tenho tentado esclarecer, não podemos cultivar o nacionalismo e ao mesmo tempo falar de fraternidade. Creio que foi Hitler quem baniu a ideia de fraternidade da Alemanha porque, disse ele, era antagónica ao nacionalismo. Mas aqui estão vocês a tentar cultivar ambos. No íntimo são nacionalistas, possessivos; fazm distinção de classes, e contudo falam sobre a fraternidade universal, sobre a paz mundial, sobre a unidade e a unicidade da vida. Enquanto a vossa acção estiver dividida, enquanto não houver ligação íntima entre pensamento, sentimento e acção, e consciência plena dessa ligação íntima, haverá inúmeros problemas que tomam tal predominância nas vossas vidas que se tornam uma fonte constante de decadência.

Pergunta: O que diz quanto à necessidade de ausência de toda a conformidade, de toda a liderança e autoridade, é um ensinamento útil para alguns de nós. Mas a sociedade e talvez mesmo a religião, juntamente com as suas instituições e um governo sábio, são essenciais para a vasta maioria da raça humana e por isso úteis para ela. Falo a partir de anos de experiência. Discorda desta opinião?

Krishnamurti: O que é veneno para si é veneno para os outros. Se a crença religiosa, se a autoridade é falsa para si, é falsa para toda a gente. Quando vocês consideram o homem como o interlocutor o considera, então retêm e cultivam nele uma mentalidade servil. Isso é o que eu chamo exploração. Essa é a atitude aquisitiva ou capitalista: “O que é benéfico e útil para mim é perigoso para vocês.” Assim mantêm como escravos aqueles que estão limitados pela autoridade, pelass crenças religiosas. Vocês não criam novas organizações, novas instituições, para ajudar estes escravos a libertar-se e a não se tornarem novamente escravos de novas organizações e instituições.

Ora eu não me oponho às organizações, mas afirmo que nenhuma organização pode conduzir o homem à verdade. Contudo todas as sociedades religiosas, seitas, e grupos se baseiam na ideia de que o homem pode ser orientado para a verdade. As organizações deveriam existir para o bem-estar do homem, organizações não divididas pela nacionalidade, pela distinção de classes. Esta é a coisa fundamental que resolverá o problema imediato que confronta cada pessoa, o problema da exploração, o problema da fome.

Podem insistir em que, da forma que as pessoas são, têm que estar limitadas pela autoridade. Mas se perceberem que a autoridade é perversora, mutiladora, então combaterão a autoridade; descobrirão novos métodos de educação que ajudem o homem a libertar-se, sem esta praga da distinção. Mas quando olham para a vida de um ponto de vista tacanho, egoísta, fanático, inevitavelmente farão uma pergunta como esta; fazem-na porque têm medo que aqueles sobre os quais têm autoridade já não lhes obedeçam. Esta consideração sobre as massas, sobre a multidão, é muito superficial, falsa; surge do medo, e tem que conduzir inevitavelmente à exploração. Mas se verdadeiramente percebessem o significado da autoridade, da conformação à tradição, de se moldarem a um padrão, de condicionarem a vossa mente e o vosso coração por um princípio ou ideal, então ajudariam inteligentemente o homem a libertar-se deles. Então veriam a sua futilidade e o seu efeito degenerativo, não somente em vocês ou em alguns, mas em toda a raça humana. Por isso ajudariam a libertar o poder criativo no homem, fosse em vocês próprios ou em qualquer outra pessoa, Deixariam de manter esta distinção artificial entre homem e homem, tal como superior ou inferior, evoluído ou não-evoluído. Mas isto não significa que haja ou que venha a haver igualdade; não existe tal coisa. Só existe o homem em realização. Mas a mente que cria distinção porque pensa em si própria como separada é uma mente exploradora, é uma mente cruel, e contra uma mente assim a inteligência sempre deverá estar em revolta.

A Arte de Escutar

Adyar - 3ª palestra 31 de dezembro, 1933.

Jiddu Krishnamurti. A Arte de Escutar. Filosofia. Textos de J.Krishnamurti em Português.

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